Lula vai ressuscitar sua criatura fiscal
Na célebre história de Mary Shelley, Frankenstein não é somente o nome do protagonista, mas também de seu criador: Victor Frankenstein, o cientista que decide dar vida a uma criatura moldada por suas próprias mãos.
A confusão entre criador e criatura atravessou dois séculos e, talvez, ofereça uma boa metáfora para o que o presidente Lula da Silva parece começar a desenhar para um eventual quarto mandato, se reeleito.
O futuro ministro da Fazenda de Lula, caso vença o pleito de outubro, ainda não tem nome e sobrenome.
Minha percepção, contudo, é que o atual ocupante da pasta, Dario Durigan, está diante de uma difícil empreitada: construir junto ao mercado a percepção de que pode estar em gestação uma espécie de “PalocciStein” para um eventual novo mandato.
Voltemos no tempo.
Em 2003, quando chegou pela primeira vez ao Palácio do Planalto, Lula encontrou um mercado profundamente desconfiado.
A inflação estava pressionada, o risco-país permanecia nas alturas, o dólar estava “entre o lustre e o teto” e havia enorme incerteza sobre o que um governo do PT faria com a política econômica herdada dos anos FHC.
A resposta de Lula foi indicar Antonio Palocci, um político até então pouco conhecido fora de São Paulo, ex-prefeito de uma cidade do interior paulista.
Palocci tornou-se, em pouco tempo, o fiador econômico do novo governo.
Responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante foram preservados: o conhecido tripé macroeconômico de FHC.
Mais do que isso: o governo elevou o esforço fiscal e adotou, na largada, uma política econômica consideravelmente mais ortodoxa do que muitos esperavam de um presidente eleito pelo PT.
Foi uma criatura improvável...
Por quê? Àquela época, poucos apostariam que um governo de esquerda, recém-empossado, adotaria uma política fiscal austera para conquistar credibilidade.
O ministro da Fazenda conversava com o mercado e defendia abertamente que o crescimento sustentável dependia, primeiro, da organização das contas públicas.
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