'O feminicídio gera órfãos como eu todos os dias': como irmãos que viram mãe ser assassinada e foram baleados pelo próprio pai lutaram durante 20 anos por Justiça
Zaldo Just Neto tinha apenas 2 anos e 8 meses quando seis tiros determinariam como seria a sua vida dali pra frente.
Um atingiu o seu rosto enquanto brincava no chão; um segundo, o ombro da sua irmã; mais um, as costas do seu tio; e os outros três a cabeça de sua mãe, Maristela, então com 25 anos.
Era uma noite de outono em Jaboatão dos Guararapes, cidade do Grande Recife, em abril de 1989.
O pai de Zaldo, José Ramos Lopes Neto, sem aceitar o fim do relacionamento, pediu para se reunir com a ex e os filhos.
Trancado dentro do quarto da casa dos ex-sogros, cometeu o feminicídio e as três tentativas de homicídio.
Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite.
Mas carregou no corpo e na mente as sequelas daquela bala.
O tiro disparado pelo próprio pai causou uma grave lesão neurológica, que comprometeu o desenvolvimento motor de todo o lado esquerdo de seu corpo.
Até hoje, sente tonturas e pequenos esquecimentos temporários.
"Fiquei órfão da minha mãe, consequentemente do meu pai.
Tornei-me uma pessoa com deficiência física por conta daquele que era para cuidar de mim, mas tentou me assassinar", relata Zaldo em entrevista à BBC News Brasil.
O assassinato de Maristela Just se tornou um dos casos de feminicídio — quando nem havia esse crime tipificado — mais famosos em Pernambuco.
E é também um caso símbolo de como a Justiça no país pode demorar.
Entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos.
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