Crise na Casas Bahia mostra que parcela não cabe mais no bolso
Em um país desigual como o Brasil, em que os 10% mais ricos concentram 40% da renda, os varejistas precisam voltar ao básico: comprar por menos, vender por mais, entregar rápido e oferecer o melhor preço. Qualquer investimento que não esteja diretamente relacionado a essas etapas é dispensável.
Esta é a opinião de especialistas em varejo ouvidos pelo UOL para explicar a crise que acomete grandes empresas do setor desde o início do ano. No início da semana, a Casas Bahia pediu proteção na Justiça para renegociar suas dívidas . Redes como Marabraz, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly) e St. Marché também solicitaram recuperação judicial, enquanto o Grupo Pão de Açúcar (GPA) está em recuperação extrajudicial .
Embora questões estruturais afetem diretamente as operações, como a taxa básica de juros, a Selic, a dois dígitos, que aumenta de maneira exponencial o endividamento das empresas, os especialistas chamam a atenção para falhas na gestão de parte das varejistas. "Não adianta investir em modelos preditivos para identificar a demanda do consumidor, procurar proporcionar a melhor experiência de compra, se a empresa descuida de etapas fundamentais, como a precificação dos produtos", diz André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners.
A imensa maioria da população ganha pouco e, com tantos apelos de consumo, de academia a viagens, passando por gastos com educação e, mais recentemente, com as bets, conseguir espaço no bolso do consumidor se tornou ainda mais difícil André Pimentel, sócio da Performa Partners
O imigrante judeu Samuel Klein, quando fundou a primeira loja da Casas Bahia, em 1957, em São Caetano do Sul, ficou célebre por vender por carnê a trabalhadores que vinham de outras regiões do país para a capital paulista atraídos por empregos que melhorassem suas condições de vida. Klein sabia que os clientes iriam honrar as dívidas, porque queriam continuar comprando, e oferecia parcelas que cabiam no bolso dos consumidores.
Mas hoje, a julgar pelos dados do Serasa, a prestação já não cabe no bolso. O mês de julho fechou com 84 milhões de consumidores inadimplentes no Brasil , o equivalente a 39% da população, cada um com uma dívida média de quase R$ 7.000. O ganho médio do brasileiro, no entanto, foi de R$ 3.367 em 2025, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Pimentel lembra que os grandes marketplaces estão desafiando o varejo tradicional ao oferecer uma opção mais cômoda de consumo, pela internet. O cliente pesquisa o preço e fecha a compra sem sair de casa, e parte das vezes sem pagar frete. A venda on-line vem tirando, inclusive, espaço das vendas dos shoppings.
Dados da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) apontam queda de 6,2% nas visitas mensais entre 2019 (antes da pandemia) e 2025. No ano passado, a média de visitas foi de 471 milhões ao mês, ante os 476 milhões de 2024 —trata-se do primeiro recuo desde a retomada de público pós-Covid-19. Embora o faturamento nominal dos shoppings tenha crescido 4,2% para R$ 200,9 bilhões de 2019 a 2025, descontada a inflação pelo IPCA no período, as vendas reais caíram 25%.
"O Brasil não é Estados Unidos, França, Japão.
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