‘Ancestralidade africana de Guimarães Rosa não aparece na crítica, mas está na obra’, diz biógrafo do escritor
O escritor João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) e inicialmente formou-se em Medicina, chegando a trabalhar em Barbacena. No entanto, após ver-se encurralado pelos conflitos da Revolução Constitucionalista de 1932, ele seguiu o conselho de ingressar na diplomacia em busca de uma vida mais tranquila, sendo designado para Hamburgo, na Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial .
Essa história é uma de muitas que compõem o livro “ João Guimarães Rosa : biografia”, do jornalista Leonêncio Nossa, que passou 20 anos investigando a trajetória do escritor. “Ele é um médico que tem dificuldade de tratar paciente, depois vai para a diplomacia pensando que vai ter condições, vai ter tempo para escrever suas histórias, mas a história está no encalço dele”, conta ao Conversa Bem Viver .
Em solo alemão, Rosa vivenciou de perto a guerra e a perseguição aos judeus, registrando tudo em um diário pessoal que ele nunca quis que fosse publicado em vida e que até hoje permanece guardado. “Tem uma cena até triste, mas ao mesmo tempo com certa beleza, quando ele vai num pequeno parque da cidade e encontra uma placa dizendo que crianças judias estavam proibidas de estar ali naquele local. Então isso deixou ele amargurado. Ele, no dia a dia, nas conversas com os amigos, nos encontros, vai demonstrar uma repulsa ao regime nazista. Vai ser considerado um adversário de Hitler pela polícia nazista”, relata.
Uma das grandes revelações trazidas pela pesquisa do biógrafo é a profunda ancestralidade africana na linhagem de Guimarães Rosa, especificamente por parte de sua bisavó Graciana. “Nós temos que enxergar certos escritos há tanto tempo com os olhos do nosso tempo. Eu creio que um pouco isso em relação à obra de Guimarães Rosa. É um homem com a fortuna crítica, com a bibliografia muito extensa, talvez seja o nosso escritor mais estudado no século 20, mas essa ancestralidade africana na vida dele e, consequentemente, na obra, ela não vai aparecer nessa crítica, mas está muito presente na obra”, reforça. Nossa cita como exemplo o conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, em que ele deixa claro que o Augusto é aparentado do João Lomba. “O Lomba é a família da bisavó do Guimarães Rosa, que é uma mulher possivelmente escravizada, que vai entrar na vida dos Guimarães, talvez pela forma da violência ou pela forma do amor, mas ela vai entrar”, revela.
Seu avô materno, Luiz, que nasceu como filho bastardo de Graciana com um jovem fazendeiro, teve papel decisivo ao tirar o futuro escritor, já que foi responsável por levar o neto para estudar em Belo Horizonte. Essa herança familiar, destaca Nossa, vai aparecer em sua obra.
Uma delas é o personagem Riobaldo, de “ Grande Sertão: Veredas “, a quem Rosa descrevia de forma clara como um homem “forro” (mestiço, pardo ou liberto) e como a própria representação do Brasil em seu caldeirão de culturas. “Em uma entrevista, ele disse claramente que o Riobaldo é o Brasil. E o que é o Brasil, se não esse encontro com violência ou com amor de povos, de culturas das mais diversas.
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