Rashid: ouvir Racionais mas apoiar Nikolas Ferreira e Pablo Marçal é uma ‘anomalia completa’
Com duas décadas de carreira, o rapper, produtor e empresário Rashid lança o álbum “Cumulonimbus”, com participações de Emicida, Projota, Luedji Luna, Kamau e Rael. O novo trabalho conta com 15 faixas que respondem à pergunta: o que fez você se apaixonar pelo rap ?
Na abertura do álbum, ele homenageia Milton Nascimento ao usar o sample de “Paula e Bebeto”, que considera uma referência. O rapper morou em Minas Gerais por muitos anos, apesar de ser paulista. “A música dele parece traduzir em áudio as paisagens de Minas, as montanhas e tal, uma coisa que fica um pouco etérea, reflexiva, de certa forma. E a música do Milton parece conseguir traduzir aquilo tudo”, conta ao Conversa Bem Viver .
Em um processo de resgate das bases da cultura do hip hop, Rashid também destaca o papel fundamental das mulheres, que são atravessadas pelo machismo, como ocorre em todos os espaços. “O rap tem uma dívida enorme com as mulheres”, resume. Ele explica que a formação de grande parte dos artistas de rap vem de famílias de “matriarcas” e “mães-solo”.
Em sua música “Criado por Mulheres”, ele presta uma homenagem tanto às figuras de sua família de sangue quanto às “mulheres do rap”, reconhecendo que o valor e a contribuição feminina para o hip hop nem sempre são reconhecidos.
“O bom é que o rap tem uma trajetória gigante, então tem muito tempo para realmente fazer as pazes e mostrar todo o devido valor da contribuição das mulheres para chegar onde chegamos.”
Rashid aponta que muitos novos ouvintes ou artistas tratam a música apenas como um produto de prateleira da indústria do entretenimento, ignorando que ela nasce como um “grito de sobrevivência” contra a opressão do Estado. Ele reforça que, para estar “dentro” dessa cultura, é necessário um compromisso com o conhecimento de suas raízes. Caso contrário, a caminhada gerada com muito esforço acaba esvaziada.
O artista observa uma profunda contradição, por exemplo, em indivíduos que apoiam figuras políticas de direita como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Pablo Marçal enquanto ouvem grupos como Racionais MC’s. “Isso é uma anomalia completa”, diz.
Ele argumenta que a cultura hip-hop deve formar a “cosmovisão” do cidadão, e que o distanciamento dos valores de resistência permite que o gênero seja cooptado por quem não pertence ao movimento, transformando o que era um “estilo de vida” de fato em apenas um “lifestyle ” vazio para o mercado.
Para ele, o rap é, fundamentalmente, uma “escola de vida” e uma ferramenta de “letramento”. Sobre isso, Rashid comenta a arte da capa do disco, que traz uma nuvem: “O disco é denso, é pesado e é cheio de descarrego. A cultura se movimenta como a nuvem também. Devagar, vai chegando e, quando você ouve o primeiro trovão, já está em cima, a chuva já vai começar. E tem aquela coisa do rap fechar o tempo… E não é nem no sentido negativo, mas no sentido de os caras começarem ali e agora a gente precisar escutar. Vamos fechar a boca, tá ligado? E escutar.
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