No centenário de Fidel Castro, Cuba enfrenta crise que coloca legado da Revolução à prova
No centenário do nascimento de Fidel Castro, celebrado nesta quinta-feira, 13 de agosto, Cuba vive sob uma contradição: enquanto o Partido Comunista celebra o líder que comandou a ilha por quase meio século, o país enfrenta uma das mais graves crises de sua história recente.
Exposições, shows e conferências foram organizados para marcar os 100 anos do nascimento de Fidel, morto em 2016. Mas, fora das cerimônias oficiais, a realidade é marcada por apagões que podem durar horas ou até dias, falta de alimentos e água, transporte público em colapso e escassez de medicamentos.
A crise também reacende uma discussão incômoda para os cubanos: o que permanece das promessas sociais da Revolução e até que ponto seus problemas atuais são consequência de pressões externas ou do próprio modelo econômico e político construído sob Fidel.
Antes de colocar um retrato de Castro na janela de sua casa, em Havana, o eletricista Leonel Suárez, de 54 anos, beija a imagem. Há mais de uma década, ele coleciona fotografias e objetos ligados à Revolução e chama Fidel de “mestre”.
Suárez acredita que, se estivesse vivo, o antigo líder saberia enfrentar a crise “com muita estratégia” e “dando duro por seu povo”.
Mas a situação econômica chegou a um ponto em que até sua coleção virou fonte de renda. Quando um turista lhe ofereceu US$ 100 por uma fotografia de Fidel, ele aceitou.
Para uma parte dos cubanos, Fidel ainda é lembrado como o líder que atravessou algumas das maiores crises enfrentadas pela ilha: a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis, o embargo americano, tentativas de assassinato e o colapso da União Soviética, que deixou Cuba sem seu principal aliado econômico.
“Fidel já não está aqui, e ninguém tem as capacidades que Fidel tinha”, afirma Rogelio Valdivia, de 54 anos, em sua oficina na Havana Velha, o centro histórico da capital cubana.
Valdivia nasceu durante a Revolução e atribui a ela parte de sua trajetória pessoal. Nas paredes da oficina, entre ferramentas e rachaduras, mantém uma espécie de santuário dedicado a Fidel.
Após sua morte, uma lei proibiu a construção de monumentos em sua homenagem e o uso de seu nome para instituições públicas. Os grandes painéis com seu rosto também foram desaparecendo, deteriorados pelo tempo.
O culto oficial à imagem de Fidel permanece, mas já não ocupa o mesmo espaço no cotidiano.
A crise atinge justamente uma geração que durante décadas associou a Revolução a conquistas sociais.
Ángela Gutiérrez, de 86 anos, pertence a esse grupo. Ela cresceu sob Fidel e se beneficiou do sistema público de saúde e educação. Hoje, diz estar “decepcionada” com os rumos do país.
Depois de percorrer barracas de alimentos sem conseguir comprar o que precisava, reclama dos preços e dos apagões.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rfi.fr — o conteúdo pertence a RFI Brasil.