Atenção primária é estratégia e vai muito além dos cuidados básicos
Muitas vezes associada apenas a ações de prevenção e promoção de saúde, a atenção primária é muito mais ampla e complexa, operando como um eixo estratégico de organização de todo o sistema de saúde.
Isso envolve alguns pilares essenciais, a começar por políticas e ações multissetoriais voltadas à saúde e ao bem-estar, o que abrange não apenas serviços de saúde, mas também educação, assistência social, comportamento, cultura, esporte etc.
Trata-se de um modelo que pressupõe a participação ativa das pessoas, famílias e comunidades e que reconhece que o cuidado de saúde deve dialogar com a realidade concreta dos territórios onde as pessoas vivem.
Um segundo pilar entende a atenção primária como nível de atenção e modelo de organização dos serviços, sendo a porta de entrada preferencial do sistema de saúde.
Barbara Starfield, estudiosa e especialista no tema, define alguns atributos fundamentais para que isso funcione adequadamente: · Acesso, ou seja, garantir que as pessoas possam procurar o serviço necessário e que sejam efetivamente atendidas. · Coordenação do cuidado, que significa acompanhar o paciente ao longo de toda sua trajetória no sistema, organizando a jornada de cuidado e evitando a fragmentação e a perda das informações. · Longitudinalidade, que pressupõe o acompanhamento contínuo da pessoa por uma mesma equipe de saúde ao longo do tempo, permitindo conhecer melhor suas condições, seu histórico e seu contexto de vida. · Integralidade ou, como prefere definir o Dr.
Rafael Ornelas, diretor de Atenção Primária e Rede Assistencial do Einstein, abrangência do cuidado, que diz respeito à capacidade de oferecer uma gama ampla de serviços, desde consultas até vacinação, exames, acompanhamento de doenças crônicas, saúde bucal, planejamento reprodutivo, procedimentos e visitas domiciliares. · Orientação Familiar, Comunitária e Competência cultural.
No Brasil, a principal forma de implementação da atenção primária no sistema público é a Estratégia de Saúde da Família, um modelo desenvolvido pelo Ministério da Saúde, baseado no trabalho integrado de equipes compostas por médicos, enfermeiros, técnicos ou auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde, responsáveis por territórios específicos.
Isso permite conhecer as pessoas atendidas e seus contextos, quais são seus riscos e condições de saúde e como intervir de forma mais assertiva.
Esse modelo se traduz em ações concretas.
As equipes conhecem as necessidades das pessoas, famílias e comunidade e acompanham, por exemplo, a vacinação infantil, identificando crianças com esquemas incompletos e realizando busca ativa.
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