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Ciência

O milagre da multiplicação de referências bibliográficas (fantasmas)

Pesquisa FAPESP ·
O milagre da multiplicação de referências bibliográficas (fantasmas)

Ariel Severino Em 2023, cerca de 4 em cada 10 mil artigos biomédicos continham ao menos uma referência bibliográfica fabri­cada.

Nem parece tanto em um primeiro momento, mas repare no ritmo de crescimento: no último trimestre de 2025, a proporção já tinha pulado para 51,3 por 10 mil e, no começo de 2026, chegou a 56,9 — cerca de 14 vezes mais.

A constatação vem de uma auditoria publi­cada na seção de correspondências do periódico The Lancet, que reuniu 2,5 milhões de estudos publicados de 2023 a fevereiro deste ano.

Esse calhamaço de manus­critos somou incríveis 125.615.773 referências (sim, mais de 125 milhões).

Como verificar a procedência de cada uma? Em vez de acessar “manualmente” todos os links, o que implicaria mais de 25 milhões de cliques de cada um dos cinco autores e prováveis diagnósticos de lesão por esforço repetitivo, foi desenvolvido um sistema automatizado que comparava os registros bibliográ­ficos com artigos de verdade disponíveis na rede.

Os dados mostram a aceleração dessa tendência no meio de 2024.

Por quê? “A inflexão […] coincide com o atraso esperado entre a adoção disseminada de LLMs [modelos de inteligência artificial de linguagem de grande escala] e a publicação dos artigos, embora o aumento da atividade de paper mills [pesquisas falsas feitas sob encomenda] e mudanças nas práticas de indexação dos periódicos também possam ter contri­buído”, escrevem os autores.

A cronologia é a seguinte: entre o fim de 2023 e o início de 2024, inicia-se a massi­ficação do uso de ChatGPT, Claude e afins.

De 100 a 200 dias depois (tempo médio da submissão à publi­cação de um artigo, segundo os pesquisadores), o gráfico com a taxa de referências manipuladas começa a tomar a forma de uma montanha digna de teleférico.

Após a exposição do cenário, a carta parte para as reco­mendações, como as de que as editoras deveriam integrar processos de verificação automatizada das referências, antes da revisão por pares, e fazer triagens retrospectivas dos periódicos para, quando necessário, emitir corre­ções.

Hoje, não existe um padrão bem estabelecido do que fazer com estudos com referências manipuladas.

Na seção de comentários da revista The Lancet , Howard Bauchner, da Universidade de Boston, e Frederick Rivara, da Universidade de Washington, propõem a lógica da punição exemplar: “Acreditamos que um manuscrito publicado no qual apareça uma referência falsa deve ser retratado. […] A retratação pode levar ao maior escru­tínio das referências por autores de manuscritos”.

Um detalhe irônico da auditoria é que a principal suspeita de fomentar a multiplicação de referên­cias-fantasmas foi utilizada para diferenciar erros de padronização, uma falha menos grave, das refe­rências que realmente não existem.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistapesquisa.fapesp.br — o conteúdo pertence a Pesquisa FAPESP.

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