Podemos não querer morrer vítimas do lixo?
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Jéssica Moreira é escritora e jornalista. Coautora do Blog Morte Sem Tabu e Cofundadora do Nós, mulheres da periferia
Conheci a palavra lixo muito antes de aprender a ler. O cheiro de chorume subia tão alto em dias de chuva que era impossível respirar. Era o odor do lixão que existiu por 28 anos em Perus, meu bairro, na região noroeste da capital paulista. Durante todo esse tempo, toneladas e toneladas de lixo de toda a cidade vinham morar debaixo de nossos narizes. "Perus, o grande lixão da cidade mais rica do Brasil." Com muita luta, meus vizinhos fecharam o aterro. É algo histórico, já narrado por esta Folha . Eu tinha 10 anos quando o movimento visitou minha escola e deixou um panfleto que dizia "Lixão + 1 não". Já sabendo ler, peguei a palavra lixão na mão e fui até a sala da diretora para pedir que fizéssemos alguma coisa. O que responder a uma criança que tem raiva e vontade de mudar o local onde mora?
Entendi bem cedo que era preciso juntar muita gente para ler essa palavra em voz alta e lutar contra ela. De tempos em tempos, o leviatã "lixológico" levanta a guarda e, infelizmente, ataca novamente no bairro. Há pouco mais de um ano, nós, moradores, descobrimos que a Prefeitura de São Paulo havia aprovado a construção das chamadas unidades de recuperação energética em quatro locais da cidade, sendo uma delas em Perus, junto à concessionária Loga. Em outras palavras, um incinerador de lixo.
O nome assusta, deve ser por isso que mudaram. Lembra algo como queimar gente viva. Queimar futuro. Queimar sonhos. Queimar. Apelidaram o projeto de ecoparque. Mas de parque não tem nada, muito menos de eco(lógico). É só a palavra bonita que inventaram para trazer toneladas de lixo para sujar Perus mais uma vez.
A atual gestão desconsiderou o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos , criado em 2014, a partir da participação popular de mais de 800 pessoas, em 58 encontros, cuja diretriz principal sempre foi dizer "não à incineração de resíduos sólidos".
Alvo de protesto de moradores de Perus em maio, a prefeitura disse que os equipamentos previstos seguem parâmetros rigorosos e não oferecem riscos à saúde da população "quando operados em conformidade com as normas ambientais vigentes".
Essas "máquinas" queimam principalmente papel e plástico, disputando o material de maior valor para as cooperativas de reciclagem e acabando com o trabalho de catadoras e catadores de toda a cidade.
Desde 2024, o Instituto Pólis , o Observatório do Clima , a Aliança Resíduo Zero Brasil e outros coletivos vêm denunciando o projeto dos incineradores na cidade, incluídos na prorrogação por mais 20 anos das concessões de serviços de limpeza sem a devida licitação.
"A cidade decidiu em 2014, num processo participativo, que não queria incineração, e agora recebe quatro incineradores contratados sem licitação e sem consulta. Enquanto em Pinheiros a prefeitura celebra a revitalização de um antigo incinerador, ela exporta a poluição para os bairros pobres da periferia.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.