1.431 dos candidatos negros já haviam se declarado brancos
Dos mais de 10 mil candidatos que se declararam negros nestas eleições, 1.431, ou 14%, já se registraram como brancos em eleições anteriores.
As informações foram levantadas pelo UOL a partir da base de dados eleitorais divulgada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Senador é o cargo com mais mudanças. 27,4% dos candidatos negros a senador já se declararam brancos. Esse número é de 26,6% dos postulantes a governador e de 14,8% dos que tentam se eleger à Câmara Federal.
PCO é o partido com mais alterações. Na legenda, 23% dos 74 candidatos negros já se declararam brancos anteriormente. Na sequência, aparecem os partidos PSD (21,4%) e PP (20,4%).
Eleição deste ano tem a segunda maior proporção de candidatos negros da série histórica iniciada em 2014. Aquele foi o primeiro ano em que a cor foi informada pelos postulantes, quando 44,3% se declararam pretos ou pardos. Em 2022, a proporção foi ligeiramente maior do que neste ano, com 50,3% de candidaturas declaradas negras. Em 2026, há 49,9% de candidaturas declaradas pretas ou pardas .
Políticas para candidatos negros estão em vigor desde 2021. Uma das regras é que o percentual de recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o fundão eleitoral, destinado a essas candidaturas não pode ser inferior à proporção de pessoas negras no partido.
Candidatura negra aumenta valor recebido pelo partido. A Emenda Constitucional 111 diz que os votos dados a candidatas mulheres ou a candidatos negros para a Câmara dos Deputados contarão em dobro no cálculo usado para distribuir os recursos do fundão eleitoral.
Incentivo, porém, não tem funcionado. É isso o que diz Wescrey Portes, coordenador de pesquisa no Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo). "Nenhum partido tem cumprido as atribuições de mínimo de candidaturas", diz.
Congresso tem perdoado partidos que descumprem regra. Em 2022, promulgou a Emenda Constitucional 117, que anistiou legendas que deixaram de destinar recursos mínimos para candidaturas negras e femininas em eleições anteriores. Em 2024, houve outra anistia.
Mudança na autodeclaração não gerou benefício eleitoral, mostra estudo. Artigo do cientista político Andrew Janusz, da Universidade da Flórida, mostrou que políticos que alteraram sua declaração de cor para negro em eleições locais brasileiras não receberam dividendos políticos e, em alguns casos, perderam votos.
Partidos são maior obstáculo para maior equidade, diz sociólogo. É nas legendas que "são produzidas novas desigualdades raciais a partir, primeiro, do processo de recrutamento e, posteriormente, quando organizam a distribuição dos seus recursos internos", afirma Wescrey Portes.
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