El Niño expõe a nova conta da proteção no agronegócio
A perspectiva de um El Niño forte recoloca o clima no centro das decisões do agronegócio brasileiro —e começa a mudar, ainda que gradualmente, a forma como o produtor enxerga a necessidade de proteção contra perdas.
Não se trata simplesmente de uma corrida ao seguro, nem de uma relação automática entre a chegada do fenômeno e o aumento dos sinistros. O que está em curso é uma mudança mais complexa, diante de um clima cada vez mais volátil. O risco deixa de ser tratado como um evento pontual e passa a entrar na conta do planejamento financeiro, da contratação de crédito, da manutenção do fluxo de caixa e da própria continuidade dos negócios.
O assunto será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento dessa nova economia que tem o UOL como parceiro. O summit acontece em Goiânia no dia 3 de setembro.
Essa transformação no agro ganha força em um país onde apenas 14% da área cultivada está protegida por algum tipo de cobertura securitária, segundo Sheila Garcia, diretora para o Brasil de soluções para riscos comerciais da Aon. Ao mesmo tempo, a redução dos recursos destinados à subvenção ao seguro rural limita a expansão dos modelos tradicionais justamente em um momento de maior incerteza climática. "O debate deixa de se restringir ao seguro rural tradicional e evolui para o conceito mais amplo de proteção climática", afirma Sheila.
Na avaliação da executiva, já existem instrumentos capazes de proteger não apenas contra perdas de produtividade, mas também contra riscos relacionados à receita, ao fluxo de caixa, ao acesso a crédito e ao cumprimento de contratos ao longo da cadeia do agronegócio. Entre eles estão os seguros paramétricos, nos quais a indenização é acionada quando determinados indicadores, como volume de chuva, temperatura ou velocidade do vento, atingem previamente níveis estabelecidos.
A lógica, nesse caso, é diferente da simples reparação de um prejuízo depois que ele ocorre. "O objetivo não é apenas compensar perdas, mas preservar liquidez, continuidade do negócio e capacidade de investimento após eventos severos", diz a executiva da Aon.
O El Niño está longe de produzir um efeito homogêneo sobre o campo brasileiro. Historicamente, o fenômeno tende a aumentar os volumes de chuva e os riscos de enchentes na região Sul, enquanto outras áreas do país podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas elevadas. O impacto final depende da cultura, da localização, da época de plantio e, sobretudo, do momento em que as anomalias climáticas ocorrem.
Essa é uma das principais cautelas apontadas por Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da Mapfre.
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