Uso prolongado de remédios para dormir ainda não é ligado ao Alzheimer
Revisão de 13 estudos com mais de 720 mil participantes encontra associação, mas não comprova relação de causa e efeito
Quase toda família conhece alguém que toma um comprimido para dormir. Para alguns, o medicamento ajuda durante uma fase de ansiedade. Para outros, tornou-se parte da rotina há anos. Clonazepam, alprazolam, diazepam, zolpidem e outros medicamentos semelhantes estão entre os remédios mais prescritos no mundo. No Brasil, o clonazepam (Rivotril) figura há anos entre os medicamentos mais consumidos. Ao mesmo tempo, é cada vez mais comum aparecerem manchetes afirmando que esses medicamentos poderiam aumentar o risco de doença de Alzheimer.
Mas será que esses medicamentos realmente aumentam o risco de Alzheimer? Uma revisão concluída recentemente de 13 grandes estudos observacionais, da qual fiz parte, deixa claro que a ciência ainda não tem uma resposta conclusiva a essa pergunta . Os pesquisadores já têm certeza, porém, de que o uso prolongado desses medicamentos está associado a diversos efeitos adversos sobre a cognição e a saúde , independentemente de sua possível relação com a demência. Entender essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o que a ciência mostra até hoje.
Qual a origem dessa preocupação? Nas últimas duas décadas, diversos estudos observaram que pessoas que usam benzodiazepínicos ou medicamentos para dormir apresentam maior frequência de doença de Alzheimer anos depois. À 1ª vista, a conclusão parece ser que o medicamento aumenta o risco. Mas, em medicina, nem sempre uma associação significa que uma coisa causa a outra.
Imagine uma pessoa que, muitos anos antes do diagnóstico de Alzheimer, começa a dormir mal, sentir mais ansiedade e apresentar sintomas depressivos. Ela pode procurar atendimento médico justamente por essas queixas e receber uma receita de benzodiazepínico ou de um remédio para dormir. Nesse cenário, o medicamento não seria necessariamente um deflagrador da doença, mas uma indicação de que o processo neurodegenerativo já estava em curso. Os cientistas chamam isso de causalidade reversa .
Distinguir associação (quando duas situações aparecem juntas com frequência) de causalidade (quando uma realmente provoca a outra) é um dos maiores desafios na interpretação de estudos observacionais e uma das razões pelas quais estabelecer relações de causa e efeito em medicina costuma ser muito mais difícil do que parece. Foi justamente essa questão que motivou nossa pesquisa. Realizamos uma revisão sistemática com meta-análise reunindo os principais estudos publicados sobre benzodiazepínicos e medicamentos conhecidos como Z-drugs (como o zolpidem) e o risco de doença de Alzheimer. As Z-drugs induzem o sono de forma mais seletiva do que os benzodiazepínicos, mas o uso prolongado também está associado a riscos como dependência, abstinência, quedas e fraturas.
Foram analisados dados de mais de 720 mil participantes provenientes de importantes estudos observacionais (aqueles em que os pesquisadores acompanham pessoas ao longo do tempo, mas não determinam quem recebe ou não um tratamento).
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.poder360.com.br — o conteúdo pertence a Poder360.