‘Honestino’ traz à tona memória que incomoda ‘Dark Horse’ e seus herdeiros
O “roteirista do Brasil” – nome fantasia para se referir ao destino, transformado nesse ser imaginário evocado em textos jornalísticos e internéticos dos nossos tempos – caprichou de novo, ao fazer com que, um mês antes da data marcada para a estreia do famigerado Dark Horse , as salas de cinema do Brasil recebessem o documentário Honestino , de Aurélio Michiles, quase uma antítese do filme bolsonarista financiado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Honestino conta a história do líder estudantil Honestino Guimarães, que foi presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB) e, principalmente, foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) até 1973, quando a entidade foi dissolvida por decreto do então ditador, o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), decisão que o fez pagar com a vida, já que ele foi preso e possivelmente assassinado pelo regime – seu corpo nunca foi encontrado.
No filme de Michiles, nós conhecemos mais que as histórias contadas através das memórias de contemporâneos de Honestino, que falam do jovem que nasceu no interior de Goiás participou da resistência estudantil à ditadura na novíssima capital federal,
Em 1h25 de duração, o longa usa linguagem híbrida, combinando entrevistas e imagens de arquivo com cenas ficcionais estreladas por Bruno Gagliasso no papel do protagonista. Essa opção estética, segundo o diretor, tem um propósito claro: “não deixar o personagem congelado numa fotografia antiga, mas torná-lo tangível, vivo”.
As cenas com Bruno Gagliasso interpretando Honestino durante sua atuação como presidente da UNE e principalmente durante seu período na clandestinidade – que culminaria em seu desaparecimento por ação dos agentes da repressão.
Essa recriação serve para conectar o expectador com o personagem real, não com as memórias dos seus contemporâneos, mas com uma pessoa que viveu, lutou, amou e sofreu, e que levou suas convicções até o fim.
Podemos entender porque Honestino fez o que fez em cada etapa da sua jornada, acompanhá-lo desde o período do endurecimento do regime até os momentos em que sua vida simplesmente desaparece, e assim é possível entender o vazio que ficou na memória daqueles que o recordam ao longo do documentário.
Permite, também, compreender melhor como funciona uma ditadura de verdade, não como a suposta ‘ditadura de esquerda’ alegada pela direita para defender seu suposto discurso de liberdade total – que é enganoso, já que consiste somente em defender a “liberdade” de cometer ilegalidades que colaboram com seu projeto de desgaste da democracia, e não com a defesa das liberdades reais que a sociedade brasileira necessita – e sim uma ditadura que realmente atacava liberdades, que proibia, perseguia, prendia torturava e mata quem pensava diferente.
Vivemos tempos tão estranhos – no Brasil e no mundo – que deixamos a extrema direita, setor apologista da ditadura e outros períodos de totalitarismo real, estabeleça os parâmetros de como o senso comum do que seria supostamente uma “ditadura”, e nesse contexto, um documentário como Honestino , que traz à tona histórias que precisam fazer parte do nosso debate atual sobre o que é realmente um regime de exceção.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em operamundi.uol.com.br — o conteúdo pertence a Opera Mundi.