O dilema de Belo Monte: mudanças climáticas tendem a agravar conflito por água do rio Xingu
Passados dez anos desde a sua inauguração, a usina hidrelétrica de Belo Monte, no norte do Pará, continua sendo um dos projetos de infraestrutura mais contestados da Amazônia.
Comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento relatam impactos severos aos ecossistemas e à qualidade de vida na região da Volta Grande do rio Xingu, enquanto cientistas alertam que as mudanças climáticas deverão agravar ainda mais esse quadro nas próximas décadas.
Inaugurada em 2016, Belo Monte é a segunda maior usina hidrelétrica em operação no Brasil, responsável pela produção de 5 a 10% da energia elétrica consumida no país, dependendo da época do ano e das condições climáticas.
Para fazer isso, ela desvia cerca de 80% da água do rio Xingu por meio de um sistema de barragens e canais artificiais na região de Altamira (PA), direcionando-a para a geração de eletricidade.
A consequência disso é que um trecho de 100 quilômetros do rio teve sua vazão drasticamente reduzida nos últimos anos, com impactos diretos sobre os ecossistemas locais e as comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem desses recursos para a sua sobrevivência.
O que é a Volta Grande do Xingu Trecho de 100 km do rio Xingu, na região de Altamira (PA), onde a vazão é controlada por Belo Monte desde 2016.
Abriga comunidades indígenas e ribeirinhas e ecossistemas únicos de floresta alagada.
“Essa redução da vazão gera uma infinidade de problemas”, diz o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGC), da Universidade de São Paulo (USP), e coordenador de um projeto de pesquisa sobre o tema, apoiado pela FAPESP e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Pará e do Amazonas (Fapespa e Fapeam).
Segundo ele, os efeitos da usina sobre a Volta Grande do Xingu “são muito piores do que os previstos” no processo de licenciamento, tanto do ponto de vista social quanto ambiental.
A Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, por outro lado, diz que os impactos estão dentro do esperado e que não há justificativa técnica para alterar os padrões de funcionamento da usina, que produz energia elétrica para milhões de famílias em todo o país.
Belo Monte foi oficialmente inaugurada em 5 de maio de 2016, com duas de suas 24 turbinas em operação.
A operação completa, com todas as turbinas em funcionamento, começou três anos e meio mais tarde, em novembro de 2019.
“Parece que é um debate de narrativas, mas não é.
É um debate de dados”, argumenta Sawakuchi, que também é integrante do Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati), uma iniciativa de pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos, que há anos monitora os impactos da usina na região ( leia mais em Belo Monte e estiagem secam Volta Grande do Xingu ).
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistapesquisa.fapesp.br — o conteúdo pertence a Pesquisa FAPESP.