A Odisseia da existência do mito ao cinema
A busca incessante sobre a existência ganha contornos de urgência e atualidade com a estreia recente do filme A Odisseia nos cinemas.
Ao reinterpretar o clássico homérico para as telas, o longa, do consagrado diretor Christopher Nolan, não faz apenas um resgate estético, mas joga luz exatamente sobre essa ferida aberta da nossa época: o isolamento contemporâneo e a crise de pertença em um mundo hiperconectado, mas existencialmente fragmentado.
O debate público gerado pela obra comprova que, mesmo cercados pelo conforto tecnológico de nossas casas de concreto, compartilhamos com o Odisseu das telas o mesmo "não estar em casa" heideggeriano, atualizando a milenar certeza de que a nossa travessia urbana moderna a inda é motivada pela dor e pela beleza de se procurar um lugar para habitar.
Odisseu costuma ser lembrado como o herói do retorno.
Não por acaso, a palavra moderna "nostalgia" deriva da reunião dos termos gregos nóstos (retorno) e álgos (dor), designando, em sua origem, o sofrimento provocado pelo desejo de voltar para casa.
A Odisseia narra sua longa viagem de volta a Ítaca, onde o aguardam Penélope, Telêmaco e a vida interrompida pela guerra.
Mais do que uma aventura, porém, sua travessia revela uma experiência fundamental da existência: a busca por uma morada que nunca se alcança plenamente.
A nostalgia de Ítaca exprime o desejo de regressar à pátria, mas também inaugura uma pergunta que atravessará toda a tradição ocidental: onde o homem realmente habita? Essa figura adquire novo significado em Dante.
No Canto XXVI do Inferno, Odisseu renuncia ao repouso e persuade seus companheiros a uma última viagem: "Considera a tua proveniência: / não foste feito para viver como um bruto, / mas para buscar a excelência e o conhecimento".
O retorno deixa de constituir o horizonte da existência.
O homem passa a definir-se pela inquietação que o impele sempre além de si mesmo.
Séculos depois, Kavafis desloca novamente o sentido da narrativa.
Em seu poema Ítaca, convida o viajante a desejar que o caminho seja longo.
A ilha permanece necessária, mas apenas porque coloca o homem a caminho.
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