Embaixo da minha rua corre um córrego de águas geladas
Eu nasci a quatro quadras acima do portão de ferro, no bairro Amambai.
Desde então, as solas dos meus pés se tornaram vermelhas como a terra do barro de Campo Grande.
Dias desses, fiquei um bocado de tempo pensando com qual rua ou avenida da minha cidade mais me identifico.
Cheguei à conclusão que depende da fase da vida.
Atualmente, sou um senhor vivido (termo que uso para substituir o tenebroso "idoso") residente na região da vila Nasser.
Assim, hoje a minha ligação mais forte é com a Tamandaré.
Voltando no tempo, quando criança, a Avenida Bandeirantes me embalou no colo por longo tempo, desde quando ainda era uma estrada comprida e nela nem existia asfalto.
Assim, tenho na infância definida a ligação inseparável com a Bandeirantes.
Gosto de lembrar dos tempos de rapaz, quando as águas da chuva gotejavam rápidas, mas eu conseguia esgueirar o corpo e quase não me molhava, tempo bom no qual o amanhã era algo pouco palpável e nem mesmo as luzes do amanhecer podiam sussurrar como o futuro poderia ser.
Quando rapaz, jamais suspeitei que no futuro o centro da cidade estaria quase vazio, repleto de carros passando sem cessar, todos isolados em seus próprios mundos, acompanhando a vida passar com os olhos pregados a um aparelho de celular.
Como todos, também sou preso ao celular, mas de vez em quando, gosto de caminhar pelo centro abandonado da cidade à procura de um lugar que não existe mais.
Nesse delírio, sem importar que me julguem um insano, encosto o carro na calçada, colo o corpo na lateral do meu carro e tento me ligar com a natureza e tudo que há em volta da minha eterna rua da juventude.
Sorrio sozinho, ninguém por perto sabe, embaixo daquele asfalto correm águas geladas cujas enxurradas inundavam tudo em volta antigamente.
O problema era tão grande que a solução dos homens foi sepultar o córrego abaixo da rua.
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