Crise na Braskem ameaça encarecer os produtos feitos de plástico no Brasil
A crise de R$ 54 bilhões que empurrou a Braskem para a recuperação extrajudicial pode chegar ao bolso do brasileiro. Se a situação financeira forçar a petroquímica a reduzir a produção, a indústria nacional poderá precisar importar mais insumos, aumentando a exposição dos preços ao dólar, ao frete e às tarifas.
A Braskem atua na base da cadeia industrial brasileira e é a única produtora nacional de algumas das principais resinas usadas pela indústria do plástico. Ela produz polietileno, polipropileno e PVC para fábricas que transformam essas matérias-primas em produtos finais. O polietileno é usado em itens como sacolas e embalagens de alimentos. O polipropileno aparece em produtos como autopeças e embalagens, enquanto o PVC é utilizado, entre outras aplicações, em tubos e materiais de construção.
Se a crise na Braskem se agravar, o consumidor pode ter de pagar parte da conta. Uma redução da produção da petroquímica pode forçar a indústria nacional a importar mais resinas para fabricar embalagens, tubos de construção e autopeças. "Uma redução relevante da oferta doméstica de resinas poderia aumentar a exposição da indústria brasileira às importações, ao câmbio e pressionar ainda mais os consumidores", diz o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor de Administração da ESPM.
A substituição da resina produzida no Brasil pela importada pode encarecer a fabricação de produtos que utilizam o insumo. Embora as resinas produzidas no país sigam referências internacionais de preços, a oferta doméstica reduz a necessidade de importação e, com isso, a exposição da indústria a frete internacional, câmbio, tarifas e prazos de entrega. "Um fornecedor 100% estrangeiro repassa integralmente frete, câmbio e tarifas, retirando esse colchão de estabilidade", diz Eric Gil Dantas, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais). "O impacto mais relevante, porém, é estrutural."
Segundo a Abiquim [Associação Brasileira da Indústria Química], cada R$ 1 milhão de produção química gera 15 novos empregos e R$ 960 mil de PIB na economia. Eric Gil Dantas, economista
Mas a concorrência do plástico importado pode limitar o impacto da crise sobre a inflação. A China aumenta a oferta de resinas no comércio global com preços agressivos, o que ajuda a conter o repasse de custos caso a Braskem diminua o ritmo de produção no país, diz Júlio Moretti, presidente da consultoria NEOT. Ele concorda que os preços podem subir com o aumento da demanda, mas avalia que a crise da Braskem não tem "a capacidade, de forma isolada, de pressionar a inflação neste momento".
O risco aumenta se a indústria correr para formar estoques por medo de ficar sem matéria-prima. O mercado externo tem capacidade para suprir o Brasil com produtos da Colômbia e da Ásia, mas uma corrida desorganizada para garantir estoques pode elevar os preços. Esse temor serve como um "gatilho" para os negócios, diz Moretti.
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