Lula dobra menções à 'soberania' e esquerda encampa tema da Defesa
O programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições deste ano tem o dobro de menções à palavra "soberania", quando comparado ao programa da eleição passada - são 42 menções à palavra em si e a variações como "soberano" e "soberana", contra 22 na eleição passada. Este ano, "democracia" aparece 19 vezes e "saúde", 43.
No plano imediato, o aumento da preocupação com a soberania nacional é principalmente uma reação à interferência dos Estados Unidos no Brasil. É também uma forma de se opor às articulações da família Bolsonaro em Washington e de encampar um discurso patriótico e nacionalista que havia sido capturado pela extrema direita desde 2015, quando as camisas da CBF tomaram os comícios políticos.
Porém, há também fatores de fundo, menos circunstanciais. Feliciano de Sá Guimarães, professor de Relações Internacionais da USP, disse à coluna que a principal mudança em relação a 2022 está na tentativa de organizar o programa das esquerdas em torno de uma "concepção ampliada de soberania" - algo não muito comum nas agendas eleitorais das esquerdas, e que cumpriria três funções.
A primeira é a reafirmação da "independência externa diante das grandes potências", em uma perspectiva de rechaço ao alinhamento automático, seja aos Estados Unidos ou à China.
A segunda tem a ver com "a capacidade estatal, tecnológica e institucional de realizar escolhas" próprias, de maneira autônoma, sem que o Brasil seja constrangido por exigências de outros países.
Por fim, a "soberania" aparece como "instrumento de desenvolvimento", no sentido de construir capacidades inatas, seja na área de ciência e tecnologia, seja na agropecuária ou na exploração de recursos energéticos.
O pesquisador identifica em tudo isso "uma mudança relevante na linguagem tradicional da esquerda brasileira", para a qual os temas de defesa e soberania são normalmente estranhos.
Do ponto de vista do eleitorado, a percepção sobre a existência de agressão externa injusta faz com que a opinião pública se coloque, de maneira geral, ao lado do presidente - seja ele quem for e seja quem for o agressor também. Essa solidariedade e essa relativa coesão nacional têm, no entanto, prazo de validade - se a ameaça externa não é debelada, o presidente passa a ser visto como fraco e impotente; ou pior: como alguém que alimenta a situação para amalgamar apoio em torno de si. Em ambos casos, o efeito eleitoral pode se tornar desastroso.
A própria noção do que possa ser uma "agressão injusta externa" é volátil.
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