Por que Milei ataca o Brasil e se curva aos EUA? O conceito que define a diplomacia argentina
O recente rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina, deflagrado após os ataques de Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, não é um mero arroubo retórico.
Para uma pesquisadora argentina, trata-se do sintoma de uma política externa baseada na subordinação voluntária e na guerra cultural.
Segundo a doutora em Relações Internacionais Gisela Pereyra Doval, da Universidade Nacional de Rosário, o governo argentino abandonou o pragmatismo para adotar o que ela batiza de “heteronomia civilizacional”.
Ela observa, em artigo na revista Nueva Sociedad , que “a palavra heteronomia não é nova nas relações internacionais.
Nicholas Onuf e Frank F.
Klink já a haviam utilizado em 1989 para designar um tipo de domínio na política mundial distinto da hierarquia e da anarquia”.
O termo descreve o comportamento esperado dos “atores minoritários” no sistema internacional e seria uma condição estrutural, algo que acontece a um Estado em função de sua posição relativa de poder, e não uma escolha de governo.
“A tradição latino-americana de estudos de política externa desenvolveu um sofisticado arcabouço conceitual para a compreensão da autonomia”, aponta.
“Essa tradição pressupõe, quase sem exceção, que a autonomia é o objetivo desejável de qualquer projeto nacional e que sua ausência se explica por restrições estruturais: as limitações impostas pelos poderes centrais, a relativa fragilidade da economia periférica , a falta de coalizões internas ou internacionais que sejam funcionais ao projeto de autonomia, entre outras”, explica Doval.
Contudo, diferentemente da dependência histórica dos países periféricos latino-americanos, a postura de Milei é uma escolha ideológica consciente.
“O que essa tradição não previu foi a possibilidade de um governo que, tendo margem de manobra disponível, decide não usá-la.
Um governo que rejeita ativamente a diversificação de seus parceiros, subordina algumas de suas decisões à agenda de um terceiro Estado e apresenta essa subordinação como um ato de liberdade”, pontua.
Essa lógica explica decisões que, de outra forma, pareceriam suicídio econômico.
Em dezembro de 2023, Milei recusou a entrada da Argentina no BRICS, virando as costas para seus maiores parceiros comerciais em meio a uma crise de reservas.
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