Pioneira na literatura lésbica, Cassandra Rios terá sua obra reeditada no Brasil
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É difícil imaginar que a primeira escritora brasileira a vender mais de 1 milhão de exemplares tenha caído no esquecimento. Mas foi o que aconteceu com Cassandra Rios —e o que a editora Relicário quer desfazer.
A editora firmou um contrato com o espólio da autora, conhecida pelos romances eróticos com protagonistas lésbicas, para reeditar sua obra. Sem previsão de chegada ao mercado, devem ser publicados, a princípio, "Um Escorpião na Balança", de 1965, e "A Santa Vaca", publicado em 1984.
O primeiro a ser reeditado narra a história de uma mulher que abandona o noivo por outra mulher. À moda de Rios, o êxtase do desejo realizado logo se torna um drama sobre abuso emocional.
Até agora, os livros de Rios eram assunto de sebo, com valores que podem chegar aos três dígitos. Desde a morte da escritora, em 2002, as reedições de sua obra foram esparsas. Em 2005, a editora Brasiliense relançou três títulos —"As Traças", "Crime de Honra" e "Uma Mulher Diferente"—, todos esgotados, e, há dez anos, o grupo Azul Editorial reeditou "Eu Sou uma Lésbica", publicado em 1980, também já esgotado.
Nascida Odete Rios em 1932, a paulistana publicou seu primeiro livro aos 16 anos, já sob o pseudônimo pelo qual ficaria conhecida. A obra foi rejeitada por todas as editoras que a receberam, mas Rios estava obstinada e foi trabalhar num escritório de advocacia para juntar o dinheiro necessário para sua publicação.
A família não gostou. À época, uma boa moça deveria casar e ter filhos. O desgosto foi tanto que a mãe ofereceu pagar pela publicação do livro. A autora topou, com a condição de que ela não o lesse.
A capa da obra é dramática. Sobre o fundo, tomado por uma enorme cabeça masculina em tons de cinza, uma mulher loira, com um vestido plissado branco, agarra o quadril de outra, de cabelos negros curtos, vestido esverdeado e pérolas no pescoço.
O título, "A Volúpia do Pecado", então, não deixa dúvidas da picância, e o conteúdo dobra a aposta. A estreia de Rios narra o envolvimento amoroso de duas vizinhas, ambas adolescentes. A amizade vira romance tórrido, com direito a dezenas de páginas carregadas de descrições de sexo.
Segundo Maíra Nassif, fundadora da Relicário, além de Rios ter posto as relações homossexuais sob um holofote inédito na literatura brasileira, ela via a mulher como ser desejante, não apenas como objeto de desejo.
O romance chegou às livrarias em 1948 e foi um sucesso estrondoso de vendas —a ponto de criar uma demanda pelo trabalho de Rios, que pôde viver de sua escrita, coisa rara para a época.
As vendas não impediram que a autora fosse alvo de censura. Numa entrevista a Jô Soares, em 1990, quando o talk show do apresentador ainda era exibido pelo canal SBT, a escritora relembrou a sua condenação por atentado ao pudor, ocorrida em 1952. A romancista tinha então só 20 anos.
A condenação de Cassandra Rios veio na esteira da publicação de "Eudemônia", ainda no governo de Getúlio Vargas.
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