Software livre, hardware aberto: a rota de soberania que começa no chip
No primeiro texto desta série, eu disse que a camada mais profunda e mais concentrada da soberania digital é o silício, o chip .
É a peça que faz tudo funcionar e, ao mesmo tempo, a que o Brasil menos controla.
Este artigo é sobre essa camada: sobre a guerra global que se trava nela e sobre um caminho de saída que nasce de uma ideia antiga da computação, a de abrir o que é fechado.
Um chip não é uma coisa, é uma pilha Para entender a disputa, é preciso ver que um processador não é um objeto único, e sim uma pilha de camadas , cada uma um ponto de estrangulamento possível.
No topo está a arquitetura , o conjunto de instruções que define a "língua" que o chip fala (as três grandes são a x86, da Intel e da AMD, a ARM, licenciada pela britânica ARM, e a RISC-V, que já veremos).
Abaixo dela vêm as ferramentas de projeto , softwares de desenho de circuitos dominados por um punhado de empresas americanas.
Depois a fabricação , concentrada em pouquíssimas fundições, sobretudo em Taiwan.
Mais fundo, a litografia , a máquina que "imprime" o circuito no silício: as de ultravioleta extremo, necessárias para os chips mais avançados, são feitas por uma única empresa no mundo , a holandesa ASML.
E na base, os materiais , como as terras raras, cujo processamento a China quase monopoliza.
A lição é simples e um tanto assustadora: quem controla qualquer uma dessas camadas pode travar a cadeia inteira .
Não é preciso fazer todos os chips.
Basta ser dono de um gargalo.
A guerra é uma disputa por gargalos É exatamente assim que a guerra dos chips funciona.
Os Estados Unidos não fabricam a maior parte dos semicondutores, mas controlam gargalos estratégicos : as ferramentas de projeto, parte da propriedade intelectual e, via aliados, a litografia.
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