Os 90 anos de Raízes do Brasil: a corrupção faz parte da cultura do país?
O tema corrupção é onipresente no debate político brasileiro.
É difícil lembrar a última eleição que não teve o assunto como pauta fundamental.
Em meio a acusações mútuas, pouco se questiona sobre as possíveis origens da corrupção.
No senso comum, o tema é tratado como um desvio moral, individual.
Outras vezes é imputado como algo inerente à ideologia adversária.
Quando o senso comum encontra alguma camada de profundidade, costuma-se dizer que a corrupção está enraizada na “cultura”.
Muitas vezes, autores como Sérgio Buarque de Holanda são evocados para corroborar a afirmação, especificamente seu livro mais conhecido: Raízes do Brasil .
Raízes é daqueles livros muito citados e pouco lidos – ou, então, lidos sem a devida historicidade.
Revisitar clássicos é sempre desafiador, pois há o risco da simplificação e do anacronismo.
Assim, longe de pretender esgotar o tema, este ensaio se propõe a pensar como o clássico pode ser mobilizado para investigar questões atuais, ou seja, como, a partir de um diagnóstico histórico e sociológico da sociedade brasileira, é possível utilizar o repertório conceitual fornecido pela obra para compreender aspectos da política brasileira e de sua relação com a corrupção.
Primeiramente, Sérgio Buarque não propunha um tratado, muito menos um receituário.
Nesse sentido, se distingue de obras da mesma época, de autores como Caio Prado Jr. e Oliveira Vianna, e de autores de algumas décadas à frente, como Faoro ou Florestan.
Isso não significa que a obra não tenha densidade teórica.
No contexto da nascente sociologia brasileira, o autor buscava entender os hábitos, crenças e valores do brasileiro “médio” e, consequentemente, suas relações sociais e políticas.
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