O tempo da ciência e os riscos da pressa
Em artigo exclusivo para Futuro da Saúde, Luiz Magno aborda a importância da ciência e dos processos de pesquisa e desenvolvimento para trazer inovações
A todo momento, surgem notícias sobre pesquisas promissoras que abrem caminhos para o tratamento de diversas doenças. Por trás dessas descobertas, existe um investimento contínuo da indústria farmacêutica. Na Lilly, mais de US$ 13 bilhões foram investidos em pesquisa e desenvolvimento em 2025, além do trabalho diário de milhares de cientistas, pesquisadores e profissionais de saúde dedicados a traduzir a ciência em inovações reais para a sociedade, oferecendo novas perspectivas para quem convive com condições crônicas.
Isso é motivo de celebração. Em áreas ligadas à saúde cardiometabólica, como obesidade e diabetes, onde tratamentos existentes já transformaram o cuidado de milhões de pessoas, é compreensível a expectativa pelo que vem a seguir. Mas existe uma pergunta importante: o que acontece quando a velocidade da expectativa supera o tempo necessário para a ciência gerar evidências suficientes sobre segurança e eficácia de terapias inovadoras?
A ciência não é exata, tem um tempo próprio e inegociável. Antes que um medicamento chegue à farmácia, ele percorre um longo caminho de estudos pré-clínicos, ensaios clínicos e rigorosa avaliação das autoridades regulatórias, etapas que podem levar anos. Cada etapa cumpre a função vital de gerar evidências que demonstram se a substância funciona, em quais condições e dosagens, para quais pacientes e com qual relação entre benefícios e riscos.
O cenário atual da retatrutida, uma molécula investigacional que ainda está em desenvolvimento clínico para o tratamento da obesidade, do diabetes tipo 2 e de outras indicações específicas, ilustra bem esse contexto. Diferentemente de medicamentos que atuam sobre um ou dois receptores hormonais, a retatrutida é um triplo agonista, desenvolvido para agir simultaneamente sobre os receptores de GLP-1, GIP e glucagon. Essa abordagem desperta grande interesse científico e público pelos resultados observados até aqui nos estudos clínicos. Embora resultados de estudos de fase 3 já tenham sido divulgados, a retatrutida ainda não foi avaliada por nenhuma autoridade regulatória para uso comercial. Portanto, é preciso separar o entusiasmo em torno de uma pesquisa promissora daquilo que já é uma realidade: a retatrutida ainda não é um tratamento aprovado, cuja segurança e eficácia tenham sido comprovadas e avaliadas pelas autoridades regulatórias, e qualquer produto comercializado hoje aos consumidores como retatrutida está sendo vendido ilegalmente.
É justamente nesse intervalo entre a pesquisa e a aprovação que pode surgir o “risco invisível”: a oferta de produtos que prometem reproduzir uma inovação que ainda não está disponível para uso comercial. Há pessoas e organizações anunciando e vendendo ao público, no mercado clandestino, produtos comercializados como retatrutida. Esses
produtos não tiveram sua segurança ou eficácia comprovadas pela Anvisa, e os pacientes não têm garantias de que foram produzidos de forma segura.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em futurodasaude.com.br — o conteúdo pertence a Futuro da Saúde.