Capitão da indústria
Crônica boa não é só frase bonita em livro vermelho. É falar: trabalhar pra viver, não viver pra trabalhar
Acordo 3:20 da manhã, não é hora, é madrugada. E lá está ela, e lá estamos nós. Do outro lado da ponte é assim, mano.
O Brasil que o livro de crônica não mostra. O Brasil que pega dois ônibus pra trabalhar 8 horas e ainda ouve que “todo mundo tem as mesmas 24 horas”. Não adianta reclamar. Até hoje vivemos como se fosse uma Capitania Hereditária. Você já nasce como se estivesse numa casta indiana: difícil ou quase impossível sair do lugar.
Vi no vídeo da editora: 5 cronistas brasileiros. Gente grande. Mas nenhum deles pegou o ônibus às 3:20 da manhã no ponto da quebrada mais longe de Beagá. Muitos deles conhecem a realidade só de livro ou televisão. Há um que falava do Brasil morando lá nos Estados Unidos. Quero falar um palavrão, mas vou deixar pra lá, né? Há uma gente que só pensa no umbigo.
A crônica que eu quero escrever é essa: da mulher que cochila no ônibus com a marmita no colo. Do senhor de 79 anos que me disse “toda vida só trabalhei”. Do povo que sustenta esse país e ainda tem que pedir tempo pra viver. Da mulher que é acusada de roubar mercadoria de uma padaria e ter pago tudo certinho no caixa. Eu não consigo dormir sem falar das histórias reais que acontecem em pleno século XXI no Brasil.
Porque crônica boa não é só frase bonita em livro vermelho. É falar: trabalhar pra viver, não viver pra trabalhar.
Eu acordo pra trabalhar. Eu corro todos os dias pra trabalhar. Meu nome é trabalho por imposição da história.
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