Torcidas contrariam clubes e se posicionam contra bets: ‘Futebol é do povo’
A publicação de um manifesto conjunto assinado por clubes e federações de futebol em defesa das casas de apostas virtuais (bets) provocou reação imediata de coletivos de torcedores e grupos antifascistas de diversas equipes brasileiras.
Em notas divulgadas entre quinta-feira (17) e sexta-feira (18), lideranças de torcidas, entidades de torcidas organizadas e outras associações ligadas a times como Vasco da Gama, Flamengo, Palmeiras, Santos, Botafogo, Remo e Sport repudiaram o tom alarmista das diretorias e defenderam o fim das apostas no esporte.
“Precisamos colocar o torcedor no centro desse debate. Estamos falando de famílias, de trabalhadores e de pessoas que muitas vezes comprometem renda, patrimônio e até relações familiares por causa de apostas. Não podemos tratar isso apenas como uma questão de patrocínio ou de receita para os clubes”, disse a torcedora do Botafogo Hericão Amaral, presidente da Torcida Fogoró. Para ela, o futebol “não pode se tornar dependente de uma atividade que tem como consequência a perda financeira de milhões de pessoas”.
Em contrapartida, levantamento do perfil estatístico Portal 91 apontou que 88% das manifestações de torcedores nas redes sociais criticaram a posição dos clubes . “O torcedor também começa a enxergar uma contradição: de um lado, os clubes dizem precisar cada vez mais do dinheiro das apostas; do outro, existe um modelo de negócio baseado justamente na perda financeira do apostador. E quem é esse apostador? O próprio torcedor”, disse a líder da torcida botafoguense.
Quem também se posicionou de forma contrária aos clubes foi o ex-presidente da Força Jovem do Vasco, Claudinho do Espírito Santo, atual presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg): “Quem já teve a família destruída ou profundamente afetada pelo vício de um familiar sabe a dor e as consequências que essa situação pode causar. Não estamos falando apenas de números ou estatísticas, mas de pessoas, famílias, endividamento, conflitos e sofrimento.”
O coletivo Vascomunistas, do Vasco da Gama, repudiou o posicionamento da diretoria vascaína. O grupo citou dados do Banco Central, mostrando que as apostas movimentaram entre R$ 18 bilhões e R$ 20,8 bilhões por mês via Pix no país, com R$ 3 bilhões oriundos de beneficiários do Bolsa Família apenas em agosto de 2024.
“A dependência é estrutural. Nos últimos anos, o futebol brasileiro trocou patrocínios industriais e de bancos por contratos com bets. Ao fazer isso, os clubes se tornaram reféns financeiros do setor e hoje atuam como lobby dele”, afirmou a nota. “Vasco não é bet. Vasco é povo. Fora, bets”, disse a publicação do grupo vascaíno.
Integrantes da Torcida Jovem do Flamengo e do “Bonde do Mao” classificaram a tese de que o controle das apostas causaria o “fim do futebol” como “ridícula e lamentável”. A nota destacou o impacto financeiro das bets sobre as famílias trabalhadoras, que perderam cerca de R$ 62,5 bilhões em 2025, o aumento do endividamento e os riscos de contaminação e manipulação de resultados.
“As apostas esportivas são um câncer no futebol, e não parte dele. Os dirigentes não defendem o futebol, que é coisa do povo.
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