Hikikomori: quando ficar em casa deixa de ser uma escolha saudável
Durante muito tempo, passar o fim de semana em casa, sem nenhum plano de sair, era apenas questão de preferência.
Hoje, esse hábito parece ter virado rotina de uma geração inteira: levantamentos recentes mostram a Geração Z como uma das mais reclusas e solitárias da história moderna.
É nesse cenário que psicólogos vêm recorrendo ao termo hikikomori — cunhado no Japão para descrever jovens que se isolam completamente em seus quartos por seis meses ou mais —, para nomear casos graves de isolamento social, impulsionados pela dependência extrema da internet, ansiedade e fobia social pós-pandemia.
Leia mais Ausência paterna: como lidar com a falta da figura do pai na vida adulta? Cultura coreana muda hábitos de consumo de 76% de brasileiros, diz pesquisa Quiet vacationing: por que profissionais tiram "férias escondidas" Mas há uma diferença importante entre o quadro extremo e o comportamento que começa a chamar a atenção de especialistas no Brasil.
Enquanto o hikikomori envolve reclusão social quase total e prolongada, evitar encontros presenciais ou resolver quase tudo pela tela pode representar apenas uma mudança no modo de se relacionar.
Para Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head da área na Starbem, plataforma de saúde digital, a diferença é essa: isolamento não é, por si só, o problema.
O alerta vem quando ficar em casa deixa de ser escolha e vira fuga de situações que geram ansiedade, desconforto ou medo da rejeição .
Para a especialista com expertise de quase 20 anos em saúde mental aplicada, “o hikikomori, da forma como foi descrito no Japão, ainda é um quadro relativamente raro.
Mas o comportamento que está na base dele já faz parte da nossa realidade”, alerta.
Por que o isolamento social está virando hábito entre a Geração Z? A tecnologia aproxima as telas, mas pode afastar as pessoas • Lookstudio/Magnific A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso, segundo Paiva.
Na avaliação da psicóloga, ficar em casa deixou de ser uma exceção e passou a ser uma escolha socialmente mais aceita , reduzindo o estranhamento diante de jovens que preferem evitar encontros e atividades presenciais.
Um estudo publicado em 2025 na Scientific Reports dá números a essa mudança.
Ao comparar adolescentes italianos antes e depois da pandemia, pesquisadores encontraram queda de 14% no lazer presencial com amigos e aumento de 9,7% nas interações online.
O grupo classificado como “Lobos Solitários” cresceu de 15,8% em 2019 para 39,4% em 2022.
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