"Toda a gente procura um culpado". E se não houver culpado?
"T oda a gente procura um culpado. Talvez porque seja mais fácil compreender um problema quando conseguimos identificar quem o causou. Quem fez, quem sofreu, quem teve poder, quem não teve, quem estava certo e quem estava errado. Mas e se, em algumas das grandes desigualdades que hoje tentamos corrigir, não houver propriamente um culpado?
Penso muitas vezes nisto. À medida que esta conversa ganha espaço, também se vão criando perceções que me preocupam. Uma luta por mais oportunidades, mais direitos ou simplesmente pela possibilidade de querer mais começa, por vezes, a ser interpretada como uma guerra entre sexos. E talvez parte do problema esteja precisamente na diferença entre aquilo que se diz e aquilo que é ouvido.
Uma mulher pode falar de uma barreira que encontrou, de uma oportunidade a que não teve acesso ou de uma realidade que acredita que ainda precisa de mudar. Pode estar apenas a tentar torná-la visível. Mas quem está do outro lado pode ouvir outra coisa: “estás a dizer que a culpa é minha”. E é nesse intervalo que, muitas vezes, nasce o confronto. Alguém que não estava a ser acusado sente necessidade de se defender. E quem estava apenas a tentar explicar uma experiência passa, aos olhos do outro, a ocupar o lugar de atacante. Rapidamente construímos dois lados de uma batalha que talvez nunca precisasse de existir.
Durante séculos, o mundo organizou-se de determinada forma. As estruturas económicas, sociais, familiares e empresariais foram sendo construídas dentro das circunstâncias, necessidades e valores de cada época. Os homens ocuparam maioritariamente determinados espaços. As mulheres ocuparam outros. Não precisamos de negar essa realidade, nem de apagar da História os momentos em que direitos e oportunidades foram efetivamente negados às mulheres.
Mas reconhecer essa história não significa responsabilizar individualmente os homens de hoje por ela. E ouvir que existe um problema também não significa ouvir que somos culpados por ele. Nem ouvir que alguma coisa precisa de mudar significa que essa mudança seja contra nós. Hoje sabemos mais. Temos dados, experiências e relatos que nos permitem identificar barreiras que antes talvez nem conseguíssemos ver. E quando adquirimos consciência, adquirimos também a possibilidade de fazer diferente.
Não para encontrar um culpado. Para construir melhor. Há também uma dimensão essencial nesta conversa: podemos querer coisas diferentes. Uma mulher pode ambicionar poder, liderança, independência financeira ou crescimento. Pode também não ambicionar nenhuma dessas coisas. A verdadeira igualdade terá de permitir ambas. E isto vale nos dois sentidos.
Preocupa-me quando alguns movimentos que defendem a igualdade parecem transformar determinadas escolhas femininas numa medida de emancipação. Mas preocupa-me igualmente assistir ao crescimento de discursos que, em reação a esses movimentos, parecem recuperar uma determinada ideia sobre aquilo que uma mulher deve ser.
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