O microfascismo como pandemia global
No livro Microfísica do Poder , escrito na década de 1970, Michel Foucault argumenta que o poder não se concentra apenas no Estado ou nas classes dirigentes.
Segundo o teórico francês, não é algo que alguém possa deter fisicamente, tratando-se de uma energia difusa, que circula nos distintos grupos sociais, moldando conhecimentos, comportamentos e corpos.
Spacca Ricardo Lewandowski, ministro aposentado do STF Cuida-se de uma força velada, que não atua apenas repressivamente, pois não se resume a proibir e castigar.
Sem que as pessoas percebam, ela produz saberes, dita normas e determina atitudes, seja pela autoridade, persuasão ou força.
Opera por meio da disciplina e vigilância em instituições como lares, escolas, igrejas, empresas, quartéis, hospitais, prisões, fábricas, clubes etc., onde são controlados horários de trabalhar, conversar, rezar, descansar, comer, dormir e acordar, estabelecendo, assim, aquilo que é considerado normal ou desviante.
Essa ideia tem a ver com a difusão generalizada do fascismo nos tempos atuais, um movimento político surgido na Itália, depois da Primeira Guerra Mundial e que logo se disseminou por todo o planeta.
Corresponde a um projeto de poder, que estimula a submissão e o conformismo por meio da violência real ou simbólica.
Caracteriza-se pelo ultranacionalismo, autoritarismo, ódio ao diferente, culto ao líder, assédio aos opositores, desprezo ao pluralismo, cerceamento de direitos e desprezo à democracia.
Dissimulação Nos dias que correm, o fascismo pouco mudou.
Atua de modo semelhante, porém mais dissimulado: ataca a legitimidade das eleições, mina a autonomia judicial, cerceia a liberdade de imprensa e desumaniza os grupos minoritários.
Especializa-se em fomentar o ódio e a polarização, sobretudo mediante o emprego eficiente das mídias digitais, cujos controladores estão sediados em outros países, fora do controle das autoridades locais.
Os pensadores Gilles Deleuze e Félix Guattari, também franceses, trazem um novo olhar sobre esse movimento, na linha das ideias de Foucault, ao desnudarem o fenômeno do microfascismo.
Na obra Mil Platôs , publicada em 1980, ponderam que as sociedades capitalistas contemporâneas operam em dois planos distintos: um denominado molar, correspondendo à macropolítica, rígida e burocrática, representada pelas instituições estatais, e outro chamado molecular, ligado aos medos e afetos que circulam nos distintos grupos sociais.
É justamente nesse nível que prospera o microfascismo, disseminado mundialmente à semelhança de uma pandemia, permitindo que algumas pseudolideranças se apropriem desses sentimentos, transformando-os em capital político.
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