Entre tratores e geopolítica, a Europa perde espaço para a China na América do Sul
O acordo entre União Europeia e Mercosul deixou de ser uma negociação técnica há muito tempo. Virou teste de realidade para a Europa. A pergunta que Bruxelas evita responder é simples: quer mesmo parceiros estratégicos na América do Sul, ou prefere seguir refém de cadeias de suprimento que Washington, Pequim e seus próprios impasses internos definem por ela?
Em Paris, o debate é apresentado como uma disputa entre agricultores franceses e carne brasileira. Leitura compreensível. Também incompleta. Para o pequeno produtor francês, pressionado por custos crescentes de energia, fertilizantes, crédito e exigências ambientais, mais concorrência parece ameaça direta. Não adianta explicar a ele que os volumes serão limitados, que as salvaguardas existem, que a quota é pequena. Quem vive de uma propriedade familiar não enxerga uma "quota tarifária". Enxerga o risco de não conseguir passar a terra para os filhos.
É precisamente por isso que a discussão precisa ser tratada com mais honestidade.
O agricultor francês não é inimigo do Brasil. Ele é, antes de tudo, um cidadão pressionado por um modelo europeu que exige padrões ambientais e sanitários cada vez mais ambiciosos, mas nunca conseguiu garantir a ele renda, previsibilidade e poder de negociação dentro da cadeia produtiva. Transformar o produtor brasileiro em vilão de uma história que, no fundo, também fala da fragilidade econômica do campo europeu é o caminho mais fácil. E o menos honesto.
Ao mesmo tempo, é insustentável que a França trate o Mercosul como se fosse um bloco homogêneo, incapaz de cumprir regras ou de produzir dentro de parâmetros exigentes. O acordo prevê liberalização gradual, quotas para produtos agrícolas sensíveis, compromissos sanitários e ambientais, além da proteção de 350 indicações geográficas europeias. Queijos, vinhos e azeites franceses ganham acesso progressivo a um mercado sul-americano de quase 300 milhões de consumidores.
Ninguém está falando em abrir as portas sem critério. Fala-se em criar regras de acesso, mecanismos de controle e instrumentos de defesa comercial num ambiente que já não permite ilusões sobre autossuficiência. A União Europeia adotou uma salvaguarda que permite suspender preferências tarifárias quando importações agrícolas ultrapassarem gatilhos de volume ou preço. O acordo tenta, com honestidade, responder ao medo político que tomou as zonas rurais europeias.
A França, porém, olha para a disputa com lentes excessivamente domésticas. Emmanuel Macron, presidente da França, prometeu votar contra o pacto depois dos protestos que levaram tratores a Paris e a outras cidades no início de 202 6. A mobilização é legítima. O problema aparece quando uma pressão real do campo passa a definir a política externa europeia num momento de competição aberta por mercados, minerais críticos, energia, alimentos e infraestrutura.
Há um precedente que Paris finge não lembrar. Entre 1961 e 1963, a chamada Guerra da Lagosta colocou navios franceses e brasileiros em rota de colisão no litoral de Pernambuco. A França dizia que lagostas nadavam. O Brasil respondia que elas caminhavam sobre a plataforma continental, e portanto eram recurso brasileiro.
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