Clima extremo ameaça crédito e seguro no agronegócio
As mudanças climáticas globais estão aumentando os gargalos financeiros de quem produz no campo. Secas mais longas, chuvas excessivas e alterações persistentes nos padrões de temperatura estão deixando o crédito mais caro e seletivo. Na outra ponta, a falta de seguros adequados retroalimenta a turbulência sobre o fluxo de caixa dos produtores rurais.
O novo cenário exige uma revisão da forma como o sistema financeiro encara o risco agrícola, segundo Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Seguro Rural da FGV. "A intensificação dos eventos climáticos extremos mudou a natureza do debate. Hoje, discutir seguro rural significa discutir estabilidade econômica, segurança alimentar e capacidade de adaptação do agro brasileiro", afirma. Na avaliação do especialista, "crédito sem seguro é quase algo irresponsável".
O assunto será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento dessa nova economia que tem o UOL como parceiro. O summit acontece em Goiânia no dia 3 de setembro.
Para Loyola, por causa dos impactos do clima, o financiamento da produção precisa estar acompanhado de mecanismos capazes de absorver uma parcela relevante das perdas provocadas por eventos climáticos. A lógica, segundo ele, é simples.
Quando uma seca ou uma inundação destrói uma lavoura, o problema não termina na porteira. A perda reduz a renda do produtor, compromete o pagamento do financiamento e pode aumentar o risco de inadimplência para o banco.
Parte dessa conta está dimensionada. Ao cruzar dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com informações climáticas históricas e projeções, uma análise do Banco Central identificou que 4.300 dos 5.572 municípios brasileiros registraram aumento de temperatura entre 2000-2004 e 2019-2023, enquanto 4.326 tiveram redução de chuvas.
Em um dos recortes mais relevantes, 558 municípios que apresentaram as maiores quedas de chuva concentravam R$ 122,5 bilhões em crédito rural ativo em junho de 2024 —pouco mais de 17% de toda a carteira do país, então em R$ 717 bilhões. O levantamento não estima perdas futuras nem diz quanto do crédito será afetado, mas mostra onde estão as exposições que podem se transformar em risco financeiro.
O impacto das mudanças climáticas aparece também no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), ferramenta que há três décadas organiza parte importante da relação entre clima, produção e financiamento. A atualização das séries históricas utilizadas pelo zoneamento, agora com dados de 1992 a 2022, mostrou alterações nas janelas de plantio em 3.285 dos 5.569 municípios brasileiros, ou 58,9% do total. Em 1.474 cidades, houve redução da janela.
O Zarc é referência para políticas de financiamento do Plano Safra e para instrumentos como o Programa de Seguro Rural (PSR) e o Proagro. Em regiões onde o período adequado para plantar diminui, a consequência pode ser direta. Há menos espaço para acomodar uma segunda safra e maior dificuldade para o produtor cumprir as condições de produção consideradas na concessão de crédito e na contratação do seguro.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.