Os coveiros invisíveis da internet
A psicanálise me ensinou que o trauma raramente grita.
Ele se instala em silêncio, mora nos pesadelos, nas mãos que tremem sem motivo aparente, na incapacidade de sentir alegria diante do que antes alegrava.
Freud chamou de compulsão à repetição esse retorno insistente do que não pôde ser elaborado.
Penso nisso aqui em Brasília desde que soube da história de uma mulher que passou três anos em Barcelona limpando a internet para que eu, você e quatro bilhões de pessoas pudéssemos rolar a tela em paz.
Ela foi moderadora de conteúdo da Meta entre 2022 e 2025, contratada por uma terceirizada instalada na Torre Glòries, um dos cartões-postais da capital catalã.
Passava o expediente diante de violência extrema, abusos, mortes, crueldades que o algoritmo não sabia julgar sozinho.
Segundo a família, desenvolveu estresse pós-traumático.
Foi dispensada com uma indenização de 2 mil euros.
Morreu por suicídio em Lyon, na França.
Os familiares agora cobram da Meta entre 200 mil e 500 mil euros.
Nenhuma quantia devolve uma vida; toda quantia, porém, revela quanto uma corporação acha que ela valia.
Adoecimento psíquico Ela fazia parte de uma legião.
Mais de 2 mil pessoas perderam o emprego quando a Meta rompeu o contrato com a subcontratada, em 2025.
Naquele escritório, um em cada quatro funcionários chegou a ser afastado por adoecimento psíquico.
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