Sombras de estelionato eleitoral nos discursos de Flávio Bolsonaro
É natural que o candidato à frente na eleição seja mais cobrado a divulgar um plano de governo, principalmente na economia, ainda mais quando, na campanha, isso ficou meio de lado.
Ao aceitar essa demanda, e até se antecipar a ela, Flávio Bolsonaro, que saiu na frente do presidente Lula, candidato à reeleição, no primeiro turno, tem fornecido, nos discursos e entrevistas dele próprio e de seus porta-vozes, um programa de governo ainda bastante contraditório.
A proposta central de um "tesouraço" entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões, como forma de estancar os déficits nas contas públicas e encaminhar a estabilização da dívida bruta do governo, serviu para embalar o apoio do mercado financeiro e levou a um recorde de alta na Bolsa, ao mesmo tempo em que fez a cotação do dólar e os juros futuros recuarem.
Vendida enfaticamente por uma de suas porta-vozes, a agressiva administradora de empresas Daniela Marques, porém, a sinalização de um corte pesado e abrupto dos gastos públicos foi desmentida, três dias depois do primeiro turno, por outro porta-voz qualificado, o economista Adolfo Sachsida, ex-ministro de Jair Bolsonaro e candidato ao ministério de Flávio.
Por meio de mensagem em redes sociais, nesta quinta-feira (8), Sachsida negou que haverá cortes de gastos sociais. "Todos os programas sociais, como Bolsa Família e BPC (Benefício de Prestação Continuada) serão preservados e fortalecidos", garantiu. Também negou que estatais, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, serão privatizadas. "Nenhuma dessas empresas será tocada", disse.
Neste momento de campanha, obviamente, não é possível saber o que vai prevalecer quando, o que se mostra mais provável no momento, Flávio Bolsonaro subir a rampa do Palácio do Planalto — se a tesoura de Daniela Marques ou a preservação de gastos de Adolfo Sachsida.
Segundo Flávio, a ideia é a Caixa comprar as dívidas dos atuais credores e renegociá-las com a estatal com carências, alongamento das prestações e juros menores.
Somando o "fortalecimento dos programas sociais", acrescido da promessa de redução de impostos, esse novo "Desenrola" não significa gasto público na veia? Sachsida responde a essa interrogação indicando que o ajuste fiscal de Bolsonaro será "focado nos excessos do governo". O economista mencionou, neste tópico, os supersalários de funcionários públicos e o número elevado de ministérios.
É difícil acreditar que o ajuste fiscal necessário para garantir superávits primários, induzir a queda dos juros e estabilizar a dívida pública possa ser obtido apenas com cortes de "excessos de gastos". Afinal, nem mesmo uma motosserra verde e amarela de R$ 200 bilhões resultaria num superávit maior do que 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto), ainda insuficiente para reverter a trajetória de alta da dívida.
Deve-se considerar, além disso, que, se de fato for aplicada em curto prazo, uma tesourada desse tamanho nas contas públicas traria uma elevação do risco de recessão na economia.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.