O patriotismo que termina em Washington
Duas agendas se cruzaram nos últimos dias e colocaram no centro do debate político uma questão decisiva para 2026: quem define as prioridades do Brasil.
De um lado, Lula reuniu Hugo Motta e Davi Alcolumbre para tratar do fim da escala 6×1, dos minerais críticos e de incentivos a datacenters — temas que envolvem a distribuição dos ganhos do desenvolvimento, o controle de recursos estratégicos e a posição do país na economia digital.
Do outro, Brasília e Washington confirmaram para a próxima segunda-feira uma reunião entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a primeira desde que as negociações foram interrompidas em julho.
A retomada foi precedida por um telefonema de uma hora e vinte entre Lula e Trump, no qual o presidente brasileiro contestou as medidas adotadas pelos americanos e defendeu a reabertura do diálogo comercial.
À primeira vista, são assuntos distintos.
Mas ambos remetem à mesma disputa: a capacidade de o Brasil estabelecer suas próprias prioridades diante de pressões econômicas, políticas e externas.
O embate comercial com os Estados Unidos, assim, ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa tarifária e coloca sob exame o discurso de patriotismo que a direita bolsonarista transformou em um de seus principais ativos.
A crise tarifária oferece o primeiro caso concreto.
As duas sobretaxas em vigor — 25% sob a Seção 301 e mais 12,5% sob alegação de trabalho forçado — podem elevar a carga a 37,5% sobre setores como calçados, máquinas, madeira e móveis, atingindo US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras.
Diante desse cenário, Lula contestou as justificativas americanas, manteve o comitê de resposta ao tarifaço e, ao mesmo tempo, retomou a negociação técnica.
Não se trata de escolher entre confronto permanente e acomodação.
Trata-se de negociar sem aceitar que uma pressão externa determine as escolhas do país.
Nesse contexto, a atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos adquire relevância política.
Em meio à crise, ele buscou interlocução direta com autoridades americanas, incluindo a audiência pública realizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.
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