Crítica | Cem Anos de Solidão – Oposições Políticas Intensificam e Dividem Macondo e os Buendía na Segunda Parte
Quando escreveu sua obra-prima ‘ Cem Anos de Solidão ’, Gabriel García Márquez sabia exatamente o que estava fazendo. Através da ficção – ou do chamado “realismo mágico”, como o caracteriza a literatura – o autor traçou a história da Colômbia (e de muitos outros territórios) ao longo de cem anos de mudanças geográficas, estéticas, políticas, ideológicas através da fictícia cidade de Macondo , enquanto, do lado de cá da realidade, entrávamos em fim de milênio, início da globalização e do liberalismo econômico e outras tantas mudanças que marcaram, especialmente, a América Latina . E se na primeira temporada da série homônima da Netflix os espectadores conheceram e se apaixonaram pelos Buendía, nessa primeira parte do fim o enredo, agora com muito mais personagens, se intensifica no contexto em que eles estão inseridos.
Depois que o coronel Aureliano Buendía (o excelente Claudio Cataño ) foi para a guerra, tudo mudou. O que inicialmente era uma luta por direitos do povo, com o passar do tempo se transformou em briga de egos, privilégios e muita cabeça-durice. Longe de Macondo , Aureliano mantinha a guerra e o controle da cidade, e não negociava a rendição com a capital. Enquanto isso, Mama Úrsula (a excepcional Marleyda Soto ) cuida de tudo, tanto da família, quanto da casa e da cidade, enquanto os netos crescem e buscam seus próprios rumos. Porém, depois que a guerra acaba e Aureliano volta pra casa, a paranoia o acompanha, enquanto ele se fecha em si mesmo. Em paralelo, os netos vão criando suas próprias famílias e trazendo, aos poucos, novos ventos para Macondo , para o bem ou para o mal.
Diferente da maioria das produções atuais, a série ‘ Cem Anos de Solidão ’ não é para ser maratonada na ansiedade; ao contrário, é para ser degustada capítulo após capítulo de modo a absorver todos os elementos apresentados na trama pois as figuras de linguagem utilizadas tanto por García Márquez quanto pelos roteiristas e diretores (através tanto do texto quanto das imagens) possuem camadas e mais camadas de significados, para além dos diálogos diretos.
Isso é especialmente verdade nessa primeira parte da última temporada, em que nos oito episódios liberados o espectador se depara com modificações e intensificações políticas que traçam o panorama de uma Macondo bem similar ao vivido pela América Latina no final de milênio, após enfrentar suas próprias feridas das lutas do passado que refletem até hoje na vida das pessoas. Aqui, nesta segunda parte, fica muito claro o abismo que existe no pensamento dos jovens (em busca de futuro, progresso, modernidades e suas próprias aventuras, desejando até mesmo colocar o próprio nome na história) em comparação com as primeiras gerações de moradores de Macondo , já idosos, que já viveram e viram de tudo um pouco, mais interessados em sossego que em inovações, mais preocupados com a manutenção do sigilo da cidade e dos direitos conquistados do que abrir fronteiras e internacionalizar as relações – afinal, enquanto somos poucos, tudo fica controlável. E a série demonstra o quanto, no final das contas, tudo é cíclico.
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