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Será que o shape falou tanto que desaprendemos a conversar?

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Será que o shape falou tanto que desaprendemos a conversar?

Estamos falando menos, e não é achismo: uma análise publicada este ano na revista científica "Perspectives on Psychological Science" estimou que a quantidade de palavras faladas por dia caiu cerca de 28% nos últimos 14 anos. Segundo o estudo, estamos perdendo 338 palavras faladas a cada dia. No espaço de 12 meses, isso dá cerca de 120 mil palavras a menos. A queda foi mais brutal, adivinhem, entre os mais jovens: nos menores de 25 anos, o recuo anual foi 44% mais acentuado do que entre os adultos mais velhos. Ou seja, a geração nativa digital, que cresceu com computador e smartphone, é quem menos abre a boca. Nosso cérebro tem algo chamado reserva cognitiva, a capacidade do órgão de se manter funcional mesmo diante do envelhecimento ou de lesões. Segundo especialistas, falar com alguém, cara a cara, é um treino cerebral e tanto. O que chega a ser irônico, pois no mesmo intervalo em que passamos a falar 28% menos, um outro tipo de treino explodiu: o físico.

Quer um dado? O número de academias no Brasil quase triplicou em dez anos, e deve passar de 70 mil até 2027. Somos o segundo maior mercado fitness do mundo, atrás só dos Estados Unidos. E estamos consumindo tanta proteína que o whey protein virou item de primeira necessidade: o preço da tonelada do whey concentrado subiu até 120% em um ano, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Suplementos Nutricionais (Abenutri), e já chega a estar em falta nas prateleiras ou sem entrega imediata. O mercado de suplementos cresceu cerca de 70% em quatro anos. O engraçado é que um dos discursos mais usados para praticar musculação e afins é justamente construir massa muscular que promova autonomia no envelhecimento. Só que de nada adianta treinar e ficar com a cara no celular o tempo todo ou com um fone redutor de ruídos.

Existe até uma expressão popular que traduz o espírito da época: 'o shape fala por mim'. Quer dizer que o corpo em forma é a mensagem, pois ele comunica disciplina, tempo livre, foco, regularidade, dinheiro? Um corpo sarado virou um cartão de visita ambulante: se o shape fala por você, talvez você não precise mais... Falar?

A ensaísta americana RS Benedict afirmou, certa vez, que o corpo deixou de ser um lugar para viver e ser feliz para virar um ativo a ser otimizado. Pense que exercício físico sempre foi uma coisa social: a pessoa dançava por prazer, jogava bola com os amigos, ia à quadra para estar perto de gente, malhava para ficar atraente e então encontrar outra pessoa. O objetivo final era o outro.

Hoje, viramos, nas palavras de Benedict, "ilhas perfeitas de autossuficiência emocional". A gente malha para ser a melhor versão de si mesmo. E quando o eu vira o projeto mais importante da nossa vida (o corpo, a dieta, a rotina, a evolução pessoal, o "self-care"), todo o resto passa a competir por um tempo e uma energia que a gente não quer mais ceder. Pois conversar exige paciência, escuta, disponibilidade... É aturar a opinião contrária, o assunto chato, o desabafo demorado. Diante de um projeto de otimização pessoal tão absorvente, o próximo virou uma despesa de energia que a gente decidiu cortar.

Há um efeito final nessa lógica, e é o mais triste.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.

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