Da amizade à chantagem, como grupos coagem crianças e adolescentes no Discord
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Amizades e namoros virtuais são usados para atrair crianças e adolescentes a um ciclo de chantagem e violência na internet . Com uma imagem íntima em mãos, os agressores, que atuam de forma organizada , ameaçam expor a vítima caso ela não cumpra novas ordens.
Inquéritos da Polícia Civil aos quais a Folha teve acesso mostram que o aliciamento não começa com uma ameaça. Primeiro, o agressor inicia uma conversa em um jogo, responde a um comentário nas redes sociais ou demonstra interesse pelo mesmo assunto.
Depois das primeiras mensagens, o agressor leva a vítima para outro aplicativo. Aos poucos, o desconhecido passa a ocupar o lugar de amigo, confidente ou namorado.
A delegada Lisandréa Zonzini Salvariego Colabuono, coordenadora do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), da Polícia Civil de São Paulo, afirma que esse vínculo pode ser cultivado durante meses antes da primeira chantagem.
"Eles mudam de aplicativo, de plataforma ou de rede social e iniciam uma web amizade ou um web namoro, que é onde tudo começa", afirma a delegada.
Durante meses, o agressor ouve histórias, oferece apoio e aprende detalhes da rotina da vítima . Quando decide ameaçá-la, já conhece os lugares e as pessoas que mais importam para ela.
"Eles são ótimos em engenharia social e articulação digital. Começam a ganhar a confiança da vítima e, nesse meio-tempo, descobrem onde ela estuda, a igreja que frequenta e onde os pais trabalham", diz Salvariego.
É nesse contexto de confiança que a criança ou o adolescente envia uma fotografia ou um vídeo íntimo. O conteúdo, tratado até então como parte de uma relação afetiva, passa a ser usado como instrumento de controle no Discord.
Sob ameaça de mostrar a imagem aos pais, aos colegas da escola ou aos amigos, a vítima cumpre uma primeira ordem. Depois vem outra. Cada material produzido sob coação é gravado e se transforma em nova ferramenta de chantagem, como apontam as investigações.
É nesse ponto que as apurações identificam uma diferença entre meninas e meninos. Conforme a coordenadora do Noad, elas representam 95% das vítimas encontradas nos casos conduzidos pelo núcleo, com idades entre 6 e 15 anos.
Meninos também são aliciados, mas a polícia observa formas distintas de coerção. Nos casos envolvendo eles, os agressores recorrem com maior frequência a pedidos de dinheiro.
Documentos de uma investigação da Polícia Civil acessados pela reportagem mostram que agressores davam parte das ordens durante chamadas de vídeo. Alguns integrantes comandavam as transmissões, enquanto outros gravavam, editavam, armazenavam ou distribuíam o conteúdo.
Foi durante uma live que uma adolescente de 13 anos teria sido induzida à automutilação e ao suicídio, segundo a investigação do caso. Depois da morte, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou que o Discord suspendesse as transmissões ao vivo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Cotidiano.