Crise 'mais do que crítica' na Volkswagen coloca filiais sob pressão, mas Brasil vê oportunidade
A situação "mais do que crítica" da Volkswagen, nas palavras do próprio CEO de uma das montadoras mais tradicionais do mundo, coloca sob pressão as filiais espalhadas pelo globo. A reestruturação em curso poderá atingir cerca de 100 mil empregos, com foco na Alemanha.
O grupo tem mais de 630 mil funcionários, principalmente na Europa e na China, mas também em países como México e Brasil. Nesta semana, a direção realiza uma série de reuniões na Alemanha para tentar avançar no plano de cortes de custos - um primeiro plano de 50 mil demissões já está em curso.
O presidente do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, disse que a empresa e a indústria automotiva alemã como um todo enfrentam "a maior turbulência de sua história", em meio a um cenário econômico global desfavorável e à concorrência da China. Além disso, os custos da produção na Europa estariam mais de 30% acima dos concorrentes.
Blume reconheceu que "não vê como as fábricas de Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm poderão permanecer lucrativas na próxima década".
"A gente não pode falar que a Volkswagen é uma empresa que semana que vem vai fechar. Volkswagen está vendendo muito. A questão é o que está sobrando para reinvestimento. Esse é o grande problema", resume Milad Kalume Neto, experiente analista do mercado automobilístico e diretor-executivo da K-Lume Consultoria. "Não é um cartão vermelho. É um sinal de atenção do presidente: 'a gente precisa agir porque, no longo prazo, vai ter problema. No longo prazo, as nossas operações aqui estão sob risco'."
Diante do avanço dos modelos elétricos chineses , a maior fabricante de veículos da Europa enfrenta o desafio do excesso de produção, com um excedente anual de 500 mil unidades no continente. As margens atuais da Volkswagen, de em torno de 4%, são insuficientes para financiar os investimentos em novas tecnologias, produtos e fábricas. Plantas como a de Osnabrück poderão migrar para outros setores industriais, como a defesa.
"Uma empresa chinesa pensa assim: em processos produtivos de estamparia, ferramentaria, pintura, eu faço como vocês todos, Volkswagen, empresas alemãs, italianas, coreanas. O que vocês têm de diferente? Eu tenho eletrificação , conectividade e tenho itens de segurança de baixo custo. E vocês, o que têm para mostrar ao mundo?", explica Kalume Neto.
"Essa é a grande briga entre os dois modelos industriais . O problema não está na Alemanha, está na indústria tradicional. A indústria alemã já era de alta escala, mas quando a gente vê o modelo chinês, é de muito mais alta escala", afirma.
O mercado chinês, pilar da rentabilidade da marca alemã por décadas, desmoronou: no segundo trimestre, as vendas da Volkswagen no país caíram 31% no período de um ano. Para piorar, a guerra comercial dos Estados Unidos impacta ainda mais na conta, em especial sobre a Porsche e a Audi, controladas pela Volkswagen. As tarifas americanas pesam cerca de € 5 bilhões anuais para o grupo.
Neste contexto delicado, as negociações com os sindicatos de trabalhadores e governos estaduais na Alemanha - o da Baixa Saxônia é um grande acionista do grupo - ocorrem sob tensão.
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