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Kotscho: Lula volta ao estádio de Vila Euclides, onde tudo começou

UOL Notícias ·
Kotscho: Lula volta ao estádio de Vila Euclides, onde tudo começou

"Greves no ABC, prisão de dirigentes metalúrgicos, anistia, volta dos exilados, fundação do PT e da CUT, campanha pela Constituinte: na virada dos anos 70 para os 80 do século 20, tinha-se a impressão de que estava acontecendo tudo ao mesmo tempo, e tão rápido, que não dava nem tempo de ficar pensando no futuro, cada semana parecia ser decisiva nas nossas vidas" (trecho do meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto - Uma vida de repórter", 2006, Companhia das Letras).

Tinha acabado de voltar ao Brasil, em outubro de 1978, depois de uma temporada como correspondente do Jornal do Brasil na Europa. Fui trabalhar na revista IstoÉ, do Mino Carta, o amigo que me convenceu a voltar.

"Meu caro, as coisas estão acontecendo por aqui, não aí na Europa...Você não viu a revista que te mandei? Pois então, volta logo para o Brasil e venha trabalhar com a gente".

Junto com a revista, com Lula na capa, mandou-me um bilhete em que profetizava: "Presta atenção neste cara. Tudo o que acontecer no Brasil daqui para a frente passará por ele".

No meu primeiro dia de trabalho, a ordem que o Mino me deu foi simples e direta. "Você vai para o ABC e gruda no Lula. Quero matéria toda semana".

Lula não gostou muito da ideia. "Ah, lá vem mais um barbudinho, intelectual da USP, pra me encher o saco..."

Ainda pouco à vontade com a crescente notoriedade proporcionada pelas greves e as grandes assembleias de metalúrgicos no estádio de Vila Euclides que desafiavam o regime, sempre cercado por repórteres e dirigentes sindicais, naquela época Lula não queria saber de política nem de políticos. O mundo dele se limitava ao sindicato, nem se falava em Partido dos Trabalhadores.

Para entender o que aconteceria 25 anos depois, quando virou presidente da República, é preciso lembrar como tudo começou. O amplo auditório do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, onde fez seus primeiros discursos, tinha ficado pequeno para abrigar aquela legião de trabalhadores que resolveram lutar por melhores salários e condições de trabalho em plena ditadura militar, quando isso era proibido.

O jeito foi pedir ao prefeito Tito Costa para ceder o estádio municipal de Vila Euclides, que mais tarde viria a ser batizado de Primeiro de Maio. Na primeira vez em que a assembleia se mudou para lá, não havia palco nem sistema de som. No meio do gramado, Lula falava alto e os que estavam à sua volta repetiam para os de trás, uma comunicação direta que mais parecia ritual indígena.

Com o tempo, as coisas foram melhorando, mas o líder sindical manteve um hábito: antes de pegar o microfone, vinha pelo meio da massa para ouvir a peãozada, saber o que eles estavam pensando sobre a vida e a greve.

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