A Cartografia do Vermelho
A expectativa de uma viagem é, por si só, a gênese sumular do próprio deslocamento.
Antes que parta o corpo, põe-se em marcha a imaginação; enquanto os pés desconhecem a terra estrangeira, o espírito já lhe percorre as ruas, inventa-lhe os aromas, escuta-lhe os rumores.
A passagem já repousa na gaveta, a estadia em Campo Grande-MS acha-se reservada, e a alma antecipa o contorno de uma cidade a qual antevejo serena, auspiciosamente bordada por alamedas largas, abertas e serenas, embaladas pela tepidez acolhedora e constante do Centro-Oeste.
Há qualquer coisa de sonho nesse intervalo entre permanecer e partir — um território suspenso, sem longitude nem latitude, onde o viajante já não pertence inteiramente ao lugar que deixa, tampouco àquele que o aguarda.
Entre os destinos já traçados no meu itinerário particular, aguarda-me a Artemis & Baco Adega Boutique — um pretexto quase ritualístico para invocar o deus do vinho e do êxtase.
Afinal, cultivar o dionisíaco não é entregar-se ao descontrole cego, mas saudar a força telúrica que habita os subterrâneos da criação: o vinho qual fluido catalisador da embriaguez poética, cadência contínua onde a razão vacila para que a intuição e a literatura possam livremente transbordar.
Inclina-se a taça; oscila o vinho; e, por um instante, entre o rubro do líquido e o rubor da consciência, Dioniso torna a caminhar entre os homens.
É nesse limiar entre a civilidade desejada e a voragem dos instintos que a literatura me assalta.
Recém-saído de Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, trago a retina ainda queimada pelo sol de um dos livros mais perturbadores e assustadores já escritos.
Permanece-me a poeira impregnada nas pálpebras, o sangue espesso sobre a areia, enquanto por algum deserto interior continua a cavalgar, em cadência lenta e lúgubre, a procissão espectral daqueles homens.
Trata-se de uma violência brutal, inigualável na literatura ocidental.
Mas, diferentemente de H.
P.
Lovecraft — que criou um panteão de entidades cósmicas para demonstrar nossa insignificância perante o Universo —, McCarthy, seu conterrâneo nascido na mesma Providence que moldara as brumas lovecraftianas em Rhode Island, revela algo ainda mais aterrorizante: uma violência que não é alienígena ou fantasmagórica, mas visceralmente humana.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.campograndenews.com.br — o conteúdo pertence a Campo Grande News.