Muito além do turismo: conheça as lutas populares de Cartagena das Índias, a ‘cidade heroica’ da Colômbia
Belas praias com água cristalina, céu azul com a melhor fotografia do Caribe, paisagens naturais dignas de cartão-postal. Assim é Cartagena das Índias, um dos destinos mais visitados na Colômbia, por turistas do mundo inteiro. A cidade, no entanto, é muito mais do que bela: nas palavras do libertador da América, Simón Bolívar, ela é “heroica”.
Isso porque, no século XIX, período de revolução nos domínios do Império espanhol nas Américas, Cartagena já era um dos pontos mais estratégicos do ponto de vista comercial e político para controlar a região. Isso fez com que a cidade ocupasse papel central nas lutas pela libertação da Grã-Colômbia e fosse palco de várias batalhas contra as forças realistas, exércitos e milícias que lutaram para manter o domínio da Coroa Espanhola.
Ao Bem Viver , programa do Brasil de Fato , quem contou parte dessa história foi Moisés Álvarez, diretor do Museu e do Arquivo Histórico de Cartagena, que guarda importante acervo documental e patrimonial da cidade desde a sua fundação, em 1533. Segundo o historiador, a relação entre a cidade e Bolívar é íntima e muito importante para a sequência das lutas pela independência.
“Em 1812, Bolívar chega a Cartagena na condição de refugiado. Ele havia sido derrotado junto com a primeira experiência republicana em Caracas, no território que hoje é a Venezuela”, explica. Ali, o general consegue tempo para angariar dinheiro e apoio militar, que seriam essenciais na retomada de Caracas.
“Aí começa a hora da libertação da nossa nação e desta parte do continente”, conta Álvarez. “Essa campanha, conhecida como ‘campanha admirável’, em 1812, terminou em Caracas, com a liberação da cidade. Por isso Bolívar escreve: ‘se Caracas me deu vida, Cartagena me deu glória’, ou seja, Cartagena deu o impulso necessário ao libertador”, conta.
Cartagena e o resto das Américas estarem livres não interessavam ao rei espanhol Fernando VII, que, assim que foi libertado após as guerras napoleônicas, tratou de investir todos os esforços para recuperar os antigos domínios que, àquela altura, estavam em pleno ápice da revolução independentista.
O general espanhol Pablo Murillo foi encarregado da tarefa de reconquistar Cartagena. E a estratégia foi brutal: as tropas realistas cercaram a cidade portuária e aplicaram um bloqueio naval implacável, que não permitia o abastecimento da cidade com nenhum tipo de insumo, seja alimentos ou outras manufaturas essenciais.
Por 106 dias, a população de Cartagena resistiu, improvisando alimentos, métodos de cozinha, reinventando a vida cotidiana para impedir o avanço das forças espanholas. Mas o sofrimento foi mais forte. Segundo Moisés Alvarez, o bloqueio matou mais da metade dos habitantes de Cartagena, que sucumbiram em decorrência da fome e de doenças.
“Os relatos dos primeiros espanhóis que entraram na cidade após o cerco são assustadores. As paredes eram todas manchadas de sangue, pois os poucos sobreviventes não conseguiam andar sem se apoiar pelos muros”, conta o historiador.
Fernando VII e o general Murillo, no entanto, não estavam satisfeitos com a queda de Cartagena. Era preciso dar o exemplo.
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