Mais de sete décadas após escandalizar Uruguai, romance surrealista ganha primeira edição brasileira
O que acontece quando uma mulher decide abandonar absolutamente tudo, cortar a própria cabeça com um punhal, colocá-la de volta, e caminhar nua em direção ao desconhecido? Em seu livro de estreia, a uruguaia Armonía Somers constrói uma fábula sombria e hipnótica.
A nudez absoluta da protagonista atua como um espelho e um catalisador para um vilarejo rural, expondo a luxúria, o fanatismo e a hipocrisia de toda uma sociedade.
Romance visionário e avassalador, A mulher nua teve sua primeira edição lançada em 1950 – a publicação do texto repercutiu como um escândalo literário e sacudiu o Uruguai.
Com uma prosa sensorial e onírica, Armonía Somers subverteu a moralidade de sua época ao narrar a jornada de Rebeca Linke — uma mulher que, no dia de seu trigésimo aniversário, despe-se das roupas e das amarras sociais para vagar pelos bosques.
Capa de ‘A Mulher Nua’, de Armonia Somers.
Armonía Somers é o pseudônimo de Armonía Liropeya Etchepare Locino.
Nascida no Uruguai em 1914, foi pedagoga, arquivista e escritora.
Estreou na literatura de forma estrondosa com A mulher nua e, ao longo de sua vida, consolidou-se como uma das vozes mais originais e transgressoras do século XX, escrevendo romances e contos que exploram a crueldade, o erotismo e o fantástico.
A edição da Relicário conta com tradução e apresentação de Mariana Sanchez, design de Ana C.
Bahia e ilustração de capa assinada por Efe Godoy, oferecendo ao público brasileiro a oportunidade de (re)descobrir uma das mentes mais brilhantes e marginais da Geração de 45 uruguaia (a mesma de Juan Carlos Onetti, Ida Vitale e Mario Benedetti).
Mergulhando no insólito e no grotesco, a prosa de Armonía Somers é densa, poética e beira ao desconcertante.
A autora utiliza o corpo feminino não como objeto, mas como o próprio território da insurreição.
A mulher nua dialoga com vertentes do surrealismo e antecipa debates urgentes sobre gênero, liberdade e o peso das estruturas patriarcais.
Narrativa que desafia convenções do realismo e da moralidade A presença desnudada de Rebeca Linke atua como um catalisador fulminante.
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