A briga de família que colocou a Argentina no mapa do vinho
Álbum de família da Catena Zapata: divergências familiares (Pedro Fadanelli/Divulgação)
Em São Paulo, poucos dias depois do Dia dos Pais, Giuliana Ferreira, embaixadora da Catena Zapata no Brasil, abriu cinco garrafas para uma pequena mesa de convidados. Três delas contavam uma história que atravessa quatro gerações e, de certa forma, cada uma carregava no rótulo uma discordância familiar que ajudou a mudar o vinho argentino .
Talvez a mais simbólica seja a garrafa dedicada a Nicola Catena, o bisavô. O rótulo conta a história em espanhol: “Contam que meu bisavô Nicola preferia a Bonarda , enquanto seu filho mais velho, meu avô Domingo Vicente, se inclinava pelo Malbec .” A frase é assinada por Laura Catena, hoje um dos principais nomes da quarta geração da família.
Poucos rótulos de vinho começam contando uma divergência entre pai e filho. Esse começa.
Nicola Catena deixou a Itália no fim do século 19 e se estabeleceu em Mendoza. Em 1902, plantou seu primeiro vinhedo de Malbec, quando dificilmente alguém poderia imaginar que aquela uva se tornaria, décadas depois, praticamente sinônimo do vinho argentino.
Existe, porém, um detalhe interessante nessa história: Nicola tinha uma predileção pessoal pela Bonarda, variedade que durante décadas ocupou um papel importante nos vinhedos argentinos, normalmente associada a vinhos de consumo cotidiano.
Enquanto o Malbec se tornava progressivamente parte da história comercial da família, a Bonarda permanecia ligada ao gosto pessoal de Nicola. Mais de um século depois, seu nome voltou para uma garrafa.
O Nicola Catena Bonarda é elaborado a partir de uma parcela histórica da família, com vinhas antigas e baixos rendimentos, e passa 18 meses em carvalho francês. Na taça, a história ganha outro significado. Não é apenas uma homenagem ao fundador, mas a recuperação de uma preferência que atravessou gerações sem desaparecer.
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes das empresas familiares longevas. Nem tudo precisa virar produto imediatamente. Algumas ideias simplesmente precisam sobreviver tempo suficiente para encontrar seu momento.
Domingo Vicente, filho mais velho de Nicola, casou-se com Angélica Zapata em 1934, união que ajudaria a formar o nome pelo qual conhecemos a vinícola hoje. O rótulo da garrafa que leva suas iniciais recupera justamente esse momento: seu desenho foi inspirado no convite de casamento de Domingo e Angélica, preservando elementos da tipografia e da estética daquele documento familiar.
Domingo também levou o negócio iniciado pelo pai a outra escala e ficou conhecido pela habilidade de combinar vinhos de diferentes parcelas.
Mas uma das histórias que melhor o define aconteceu anos depois. Durante um período de forte instabilidade econômica na Argentina, o custo para colher as uvas havia se tornado maior do que o valor que elas poderiam gerar. Nicolás Catena, seu filho, formado em economia, fez as contas e recomendou que o pai simplesmente não colhesse naquele ano.
Domingo ouviu e colheu mesmo assim. A decisão dificilmente caberia em uma planilha.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em exame.com — o conteúdo pertence a Exame.