Criadas: a ficção inventariando o que nos constitui
Natural de Salvador-Bahia, Graduou-se em Psicologia, é psicanalista em formação pela Escola de Psicanálise Après Coup (POA); Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua na clínica com psicoterapia na perspectiva da Psicanálise Amefricana.
Uma recomendação: assistam ao filme “Criadas”, dirigido por Carol Rodrigues. O título é a primeira coisa que nos faz pensar. A ambiguidade da palavra e as primeiras cenas da película mexem com nosso imaginário e a colonialidade instituída na nossa formação. Uma vez que nos remete tanto à função doméstica destinada às mulheres negras na “criadagem”, como a uma pessoa que, por convivência, é formada numa perspectiva de existência.
A complexidade das relações familiares e demais estruturadas pelo racismo, gênero e classe vai se revelando no desenrolar da trama e nos lembra, apesar de estar por vezes na superfície e tão escancarada, quão inconscientes somos das forças que tramam estas relações. Sobretudo quando os afetos significativos que temos são, em grande parte, os nós de nossas questões.
Em “Criadas” o reencontro de duas mulheres negras, uma retinta e a outra de pele clara, primas que moravam na mesma casa em uma parte de suas infâncias, mas com posições bem diferentes nas relações estruturadas, são afetadas por memórias familiares e vínculos afetivos que atualizam feridas, heranças coloniais e o colorismo como efeito do racismo na família. Sandra que é retinta, retorna à casa onde viveu com a sua mãe que trabalhou como empregada doméstica para uma tia, cuja ascensão econômica a distingue dos demais parentes. Enquanto sua mãe, como a criada da casa, ocupava o lugar de cuidado, servidão e invisibilidade.
Por outro lado, Mariana de pele clara, vai se dando conta das distinções, acessos e experiências sociais e afetivas que teve. E de como a hierarquização da cor, distribuição de privilégios e violências sofridas se davam conforme a proximidade com os ideais de embranquecimento. Sobretudo, transmitidos pela sua mãe que parece ter adotado tais ideais como espécie de blindagem das violências raciais.
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